mártir
Em janeiro de 2019, Juan Guaidó subiu num palanque em Caracas e se declarou presidente interino da Venezuela. Ele presidia a Assembleia Nacional e se apoiava num fato que EUA, União Europeia e boa parte da América Latina aceitavam. A reeleição de Nicolás Maduro não tinha sido reconhecida pela comunidade internacional. Em poucas semanas, algo entre 50 e 60 países, inclusive o Brasil, passaram a tratá-lo como chefe de Estado. Ficou cerca de quatro anos na Venezuela liderando um governo paralelo. Só saiu do país em 2023, cruzou a fronteira para a Colômbia “a pé, da mesma maneira que milhões de venezuelanos fizeram antes de mim”, nas palavras dele, e voou para Miami na madrugada de 25 de abril daquele ano.
Na quarta-feira (28), Flávio Bolsonaro também chegou a Miami. Ele perdeu a eleição por 64,2 milhões a 59,8 milhões de votos. Nenhum governo do mundo o reconhece como presidente, e dezenas cumprimentaram Lula, inclusive a italiana Giorgia Meloni, que ninguém acusará de simpatia pela esquerda. A missão de observadores da OEA disse não ter dúvidas sobre a integridade dos dados oficiais. O presidente do TSE, Nunes Marques, que chegou ao Supremo por indicação de Jair Bolsonaro, afirmou que as eleições 2026 “transcorreram dentro da mais absoluta normalidade”. Flávio saiu do país dois dias depois da derrota.
Quem trouxe Guaidó para a conversa foi o próprio Flávio. Na carta que divulgou dos Estados Unidos, ele lembra que “na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país” e coloca ao lado deles María Corina Machado, Charles de Gaulle, José Martí e Rui Barbosa. A ideia é mostrar que grandes líderes também comandaram de longe. Só que o exemplo escolhido conta outra história. Guaidó virou símbolo porque ficou, e o exílio dele veio depois de quatro anos de risco.
Exílio vira capital político quando custa alguma coisa. Até porque martírio precisa de corpo.
A carta tenta criar a narrativa do herói perseguido que parte, resiste e um dia volta. “Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil”, escreve Flávio. Acontece que essa história só funciona quando a plateia enxerga o sofrimento. Sem isso, o herói vira alguém que viajou..
Vale a mesma régua para a esquerda. O “Lula Livre” pegou porque existia uma cela em Curitiba e 580 dias de prisão contados no calendário. Concordando ou não com a leitura que o PT faz daquele processo, o símbolo tinha endereço e tinha preço, e foi isso que permitiu transformar uma condenação em narrativa de resistência.
Flávio não tem cela nem mandado. A Polícia Federal informou que ele não é foragido e que não há ordem de prisão contra ele. O que ele descumpriu foi a determinação de entregar os passaportes, dentro de um inquérito sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Fica difícil vender perseguição quando ninguém bateu à porta.
Nada disso quer dizer que a desconfiança nasceu do nada. A prorrogação da votação por duas horas, decidida pelo ministro Cristiano Zanin no fim da tarde de domingo, não tinha precedente. Na noite da eleição, o próprio Nunes Marques disse que “prorrogar uma eleição é possível, mas tem que ser pensado e estruturado”. A suspeita tem onde se apoiar, mas falta número. Depois das 17h foram registrados 34.393 votos no país inteiro, e a diferença entre os dois foi de 4,4 milhões.
Quem mais lucra com um mártir distante talvez nem seja o governo, embora o Planalto também goste de ter um vilão do outro lado do continente e tenha escolhido o silêncio por cálculo. Quem lucra é Tarcísio de Freitas. Reeleito em São Paulo no primeiro turno com mais de 60% dos votos, ele gravou um vídeo pedindo “unidade” e uma “oposição vigilante” sem citar Flávio uma vez sequer. Nem precisava. Afinal, um promete voltar algum dia. Enquanto isso, o outro governa. A base de 59,8 milhões de eleitores pode se comover com a promessa, mas em geral vota em quem está por perto.
O perigo maior para Flávio é a narrativa escapar de suas mãos sem pedir licença. Uma parte dos aliados já fala em montar um “governo no exílio” à moda de Guaidó. A carta não chega a tanto, e a primeira versão, em que ele se apresentava como “o verdadeiro presidente eleito”, foi trocada em minutos por outra mais contida. Mas é por esse caminho que tudo desanda, com um presidente autoproclamado de um país do qual ele saiu sem ser expulso.
Guaidó chegou a Miami depois de quatro anos lutando em Caracas. Flávio chegou depois de dois dias de derrota. O destino é o mesmo e a biografia é outra.
Rodrigo Buffo é jornalista, especialista em jornalismo de dados e estrategista em comunicação política


