Alessandra Zanchetta*
O silêncio que se instala na mesa de jantar após a divulgação de um resultado eleitoral não é um silêncio qualquer. É matéria densa, quase palpável, que se acumula nos cantos da sala como poeira emocional. Nas eleições presidenciais brasileiras de outubro de 2026, as urnas eletrônicas desenharam um país rigorosamente dividido: Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 48,21%. Por trás desses números exatos, esconde-se uma geografia psicológica complexa: quase metade do eleitorado — mais de 59 milhões de cidadãos — viu ruir suas expectativas de futuro.
Para essa parcela da população, a vitória da esquerda não simboliza apenas a alternância protocolar do poder, mas uma ruptura existencial. Instala-se um “luto político” que desliza da indignação para a apatia. O horizonte institucional torna-se enevoado, e o indivíduo não consegue vislumbrar qualquer ressonância de seus valores nas instâncias decisórias. É o nascimento da desesperança cívica.
Esse fenômeno não é mera metáfora. Ele encontra respaldo rigoroso na ciência da mente. Em termos clínicos, a Teoria da Desesperança proposta por psicólogos como Abramson, Metalsky e Alloy explica como a mente interpreta derrotas políticas como sentenças definitivas. Quando uma pessoa atribui a um evento adverso — neste caso, a derrota eleitoral e a ascensão de um governo rejeitado — causas estáveis (“isso nunca vai mudar”) e globais (“tudo no país está arruinado”), o cérebro processa essa leitura como uma sentença irrevogável. O resultado imediato é a paralisia e o desamparo aprendido: a crença de que nenhuma ação individual ou coletiva futura, incluindo o próprio ato de votar, terá a capacidade de alterar a realidade.
Os reflexos são visíveis. O Ipsos Health Service Report 2026 revelou que a saúde mental tornou-se a maior preocupação sanitária para 58% dos brasileiros, superando o medo de doenças crônicas. Pesquisas sobre polarização afetiva apontam que tristeza (19%), exaustão (17%) e medo (16%) passaram a ditar a relação do cidadão com a esfera pública. Surge o “burnout cívico”: um esgotamento que fratura famílias, dissolve amizades e transforma comunidades em territórios de hostilidade silenciosa.
Superar essa erosão coletiva exige mais do que discursos burocráticos. A psicologia social indica que é preciso resgatar o senso de agência do indivíduo. Democracias só respiram quando oferecem canais legítimos e transparentes de expressão. Quando o cidadão percebe que sua voz ainda molda parcelas da realidade, o peso da rocha se torna menos opressor, e a esperança pode renascer.
Há quem diga que o mundo é feito de fatos, mas na verdade ele é tecido pelas lentes através das quais escolhemos enxergá-lo. Martin Seligman, em sua obra Aprenda a Ser Otimista, nos convida a trocar essas lentes: abandonar o olhar cinzento da desesperança e vestir o colorido da confiança. O pessimismo não é destino, mas hábito — e como todo hábito, pode ser desaprendido.
Seligman apresenta técnicas para reescrever a narrativa interna: desafiar pensamentos automáticos, questionar crenças limitantes, substituir o “sempre” e o “nunca” por possibilidades mais flexíveis. É como aprender uma nova língua — a língua da esperança.
Ser otimista é um ato de criação. É pintar o amanhã com cores vivas, mesmo quando o presente insiste em tons sombrios. É escolher, todos os dias, a poesia da possibilidade em vez da prosa da resignação. E talvez, quando o silêncio voltar a ocupar a mesa de jantar, ele já não seja o peso de uma rocha, mas o espaço fértil onde a esperança começa a germinar.

Por Alessandra Zanchetta, jornalista e especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness


