Alessandra Zanchetta*
Com o início da propaganda eleitoral gratuita em rádio e televisão, o país mergulha novamente em um ambiente de disputa intensa. As campanhas, que deveriam ser espaços de apresentação de propostas e projetos de futuro, frequentemente se transformam em arenas de confronto emocional. Nesse cenário, a polarização não se limita ao embate entre candidatos: ela invade lares, redes sociais e até a saúde mental dos cidadãos.
O que está em jogo não é apenas o resultado das urnas, mas o equilíbrio coletivo. A cada discurso inflamado, a cada peça publicitária que reforça a lógica do “nós contra eles”, cresce o risco de que o debate político deixe de ser um exercício democrático e se torne fonte de desgaste psicológico. O preço dessa divisão não se mede apenas em votos ou reformas travadas, mas também na fadiga emocional de uma população que vive em estado de alerta permanente.
Nas democracias, a política depende da negociação e da convivência entre diferentes visões de mundo. Porém, quando o adversário passa a ser visto como inimigo, o diálogo se desfaz. O resultado é a paralisia legislativa: projetos de longo prazo em áreas vitais como saúde, educação e infraestrutura são abandonados simplesmente por carregarem a marca de outro partido. Órgãos técnicos e de controle perdem credibilidade, e a confiança nas regras do jogo se dissolve. A alternância de poder — que deveria ser sinal de vitalidade democrática — passa a ser encarada como ameaça e motivo de instabilidade.
Se nas instituições o dano é estrutural, no indivíduo ele é visceral. O eleitor moderno vive sob o bombardeio de uma lógica binária, amplificada por algoritmos que privilegiam a indignação. Do ponto de vista da neurociência, essa exposição constante a discursos alarmistas ativa o sistema de estresse do corpo. O cérebro interpreta a divergência política como ameaça, acionando a amígdala cerebral, responsável por respostas de medo e defesa. Isso mantém elevados os níveis de cortisol e adrenalina, hormônios que, em excesso, prejudicam memória, concentração e até o sistema imunológico.
A chamada “fadiga política” é, portanto, um esgotamento mental crônico, alimentado pela sensação de que o país está sempre à beira do colapso. A vitória do “outro lado” deixa de ser parte do ciclo democrático e passa a ser percebida como catástrofe.
Talvez o impacto mais doloroso seja o enfraquecimento das redes de apoio. A política polarizada invadiu espaços antes protegidos: almoços de família, grupos de amigos e ambientes de trabalho tornaram-se zonas de tensão. Para evitar conflitos, muitos optam pelo silêncio ou pelo afastamento. Amizades se desfazem por comentários em redes sociais, laços familiares se fragilizam. Esse isolamento leva o indivíduo a buscar refúgio em bolhas virtuais, onde sua visão de mundo é reforçada e a desconfiança em relação ao diferente se intensifica.
A sobrevivência da democracia e a preservação da saúde mental exigem limites saudáveis com a política. Reconhecer que o conflito exacerbado serve a interesses de grupos que lucram com a divisão é o primeiro passo para retomar o controle da atenção e do bem-estar.
Em vez de focar apenas nos danos da polarização, a psicologia positiva sugere práticas que fortalecem a resiliência e a saúde emocional. A gratidão ajuda a reconhecer aspectos positivos do cotidiano e reduz a sensação de ameaça; o otimismo realista permite enxergar a alternância de poder como parte natural da democracia; e o fortalecimento dos vínculos sociais protege contra o isolamento. Além disso, o mindfulness — prática de manter a atenção plena com consciência e sem julgamentos — e o desligamento voluntário do excesso de notícias diminuem o estresse. Pequenos atos de bondade e cooperação reforçam o pertencimento e a confiança no coletivo, criando um ciclo de bem-estar e esperança.
Proteger a mente da toxicidade não significa abdicar da cidadania, mas compreender que a vida vai além das urnas e das telas. Recuperar a capacidade de ouvir, valorizar os laços afetivos e praticar o desligamento consciente são atos de resistência essenciais para manter a sanidade em um mundo cada vez mais fraturado.

Por Alessandra Zanchetta, jornalista e especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness


