Alessandra Zanchetta*
As chamadas “canetas emagrecedoras” — nomes populares como Mounjaro, Ozempic, Wegovy e Saxenda — viraram febre mundial. Criadas para tratar diabetes tipo 2, rapidamente se tornaram símbolo de emagrecimento rápido, movimentando um mercado que deve ultrapassar US$ 100 bilhões em 2026. No Brasil, a previsão é de R$ 20 bilhões até o fim do ano, com mais de 1,36 milhão de pedidos online apenas no primeiro semestre.
Por trás da promessa de corpos mais magros, porém, cresce uma realidade preocupante: lucros recordes para laboratórios, falsificação perigosa dos medicamentos e efeitos colaterais que podem estar apagando o prazer de viver.
A busca por emagrecimento rápido transformou os agonistas de GLP-1 e GIP na classe farmacêutica mais lucrativa do planeta. O apelo é direto: perda de até 25% do peso corporal em alguns casos. Esse resultado alimenta uma demanda sem precedentes, muitas vezes sem prescrição ou acompanhamento médico adequado.
Com preços elevados e procura explosiva, versões falsificadas já circulam em farmácias paralelas e pela internet. A Anvisa emitiu alertas sobre lotes falsificados de semaglutida apreendidos em território nacional, contendo substâncias desconhecidas e doses incorretas. Pacientes relataram casos de intoxicação e complicações graves após uso de produtos piratas.
No início de agosto, a Anvisa proibiu a fabricação, comercialização e uso do produto “Ozempic Natural”, vendido sem registro e fabricado por empresa sem autorização. Também suspendeu outros produtos irregulares como Slim Turbo Premium e Slim CPS Dourado Gold.
Em abril de 2026, a agência alertou para canetas emagrecedoras falsas manipuladas, destacando que farmácias de manipulação estavam importando insumos sem controle. Foram interditados 8 estabelecimentos e identificados insumos suficientes para produzir até 25 milhões de doses ilegais.
Estudos recentes reforçam os alertas sobre os efeitos psiquiátricos das canetas emagrecedoras. Um estudo de coorte nacional publicado na Lancet Psychiatry em 2026, conduzido na Suécia, mostrou que pacientes com histórico de depressão ou ansiedade em uso de agonistas de GLP-1 apresentaram maior risco de agravamento dos sintomas. Já uma análise de farmacovigilância publicada no Journal of Affective Disorders em 2026, baseada em dados do banco global da OMS (VigiBase), identificou relatos de humor deprimido, ansiedade e ideação suicida associados ao uso de semaglutida, liraglutida e tirzepatida.
Embora o termo anedonia (perda da capacidade de sentir prazer) não apareça isolado nesses trabalhos, os sintomas descritos — apatia, retraimento social e perda de interesse — se sobrepõem ao quadro clínico, sugerindo que o impacto dessas drogas pode ir além do corpo e atingir diretamente os circuitos de recompensa cerebral.
A neurociência alerta: ao atuar nos circuitos de recompensa cerebral, essas drogas podem alterar a forma como o cérebro processa prazer e motivação. O resultado pode ser uma sociedade que emagrece, mas perde a cor da vida.
As canetas emagrecedoras representam uma revolução farmacológica e econômica, mas também levantam dilemas éticos e sociais. O emagrecimento rápido virou produto de consumo em massa, fomentando lucros recordes, falsificações perigosas e possíveis impactos emocionais profundos.
O desafio agora não é apenas como emagrecer, mas como não perder o prazer de viver nesse processo. Afinal, de que adianta uma sociedade magra se ela se torna, ao mesmo tempo, uma sociedade infeliz?
Por Alessandra Zanchetta, jornalista e especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness


