Eleições 2026 • Política

Áudios de reunião mostram irmão de Thiago Surfista discutindo ação contra campanha de Guti

Um áudio de aproximadamente 50 minutos, obtido pelo GuarulhosWeb, traz uma série de declarações sobre uma suposta articulação para enfraquecer a campanha eleitoral de Guti, candidato a deputado federal pelo PSD em Guarulhos.

Na gravação, interlocutores, entre os quais Rodrigo de Azevedo Lopes Fonseca, conhecido como Diguinho, irmão do vice-prefeito Thiago Surfista (PL), que concorre ao mesmo cargo de Guti, descrevem a disputa como uma “guerra”, mencionam possíveis multas contra uma empresa fornecedora da campanha e afirmam que a orientação teria vindo de uma esfera superior.

“Sei que vocês tão só trabalhando. Mas veio lá de cima e eu só tô repassando”. A frase na voz de Diguinho demonstra que a empresa não fez nada de errado e confirma a cadeia de comando realizada pelo irmão de Surfista.

Em diferentes momentos da conversa, Diguinho e outros participantes fazem referências à disputa eleitoral, à possibilidade de sanções administrativas e à intenção de convencer a empresa responsável pelos carros de som de Guti a trabalhar com outro grupo político.

O conteúdo dá contexto às denúncias que motivaram o pedido de investigação envolvendo a suposta pressão sobre a empresa ligada à campanha de Guti.

“É uma competição. É uma guerra mesmo”

A linguagem utilizada na reunião chama a atenção pela forma como a disputa é descrita. Por volta dos nove minutos de gravação, um dos interlocutores afirma que a orientação veio de instâncias superiores. “Veio lá de cima e a gente só está repassando”, diz.

Na sequência, a conversa assume um tom de confronto direto. Um dos participantes afirma: “É uma competição. É uma guerra mesmo. Precisamos deixar o outro mais fraco”. A comparação é reforçada em outra fala: “Não tem como conciliar. É guerra. É Corinthians e Palmeiras. Israel e Palestina”.

As declarações indicam que os participantes tratavam a disputa como um confronto entre grupos políticos adversários. O contexto da conversa, conforme relatado na denúncia, é a tentativa de interferir na relação comercial entre a empresa de som e a campanha de Guti, para que ela deixasse de prestar os serviços ao candidato adversário.

Candidaturas são mencionadas como possíveis alvos

Por volta dos 12 minutos e 30 segundos, a conversa passa a mencionar a situação eleitoral de Guti e de outros nomes da política local. “Vocês nem sabem. Mas o Guti vai ser impugnado. Assim como o Jesus, o vice do Xerife foi na eleição para prefeito aqui. E não vai poder concorrer. Guti está prestes a ser impugnado”, afirma um dos participantes. As informações não procedem, já que Guti teve a candidatura confirmada pela Justiça Eleitoral.

Na sequência, a gravação registra a afirmação de que a empresa seria dispensada. A fala associa a suposta perspectiva de impugnação de candidaturas ao cenário político que os participantes apresentam à empresa. O áudio, entretanto, não comprova que uma eventual impugnação estivesse efetivamente prestes a ocorrer, nem demonstra que os interlocutores tivessem conhecimento de uma decisão judicial nesse sentido.

Multas e bloqueios de rua entram na conversa

Outro trecho relevante aparece por volta dos 16 minutos, quando um dos participantes menciona possíveis penalidades relacionadas à atividade da empresa. “Tem multa por bloqueio de rua, vocês sabem”, afirma.

A referência é feita durante a conversa sobre a relação da empresa com a campanha. O trecho ganha importância porque a possibilidade de sanções administrativas aparece no mesmo diálogo em que os participantes discutem a disputa política e tentam convencer os representantes da empresa a mudar de lado.

Por volta dos 18 minutos e 30 segundos, um representante da empresa manifesta preocupação com a situação e questiona a pressão que estaria sofrendo. “Tenho medo de vocês. A guerra tem que ser no campo político. Eu não poderia ser afetado dessa maneira”, afirma.

A resposta atribuída a outro participante chamado de Luizão é: “Nós estamos segurando porque você é meu parceiro”. O representante reage: “Se fosse meu parceiro, não estaria fazendo isso comigo. Não poderia estar vindo para cima deste jeito”. O diálogo evidencia o desconforto expresso pelo representante da empresa diante da possibilidade de ser envolvido no conflito político.

“Põe os números na mesa. Queremos vocês com a gente”

Por volta dos 23 minutos, outro trecho registra uma tentativa de convencer a empresa a se aproximar do grupo que participa da reunião e a deixar a campanha de Guti. “Põe os números na mesa. Queremos vocês com a gente”, diz um dos interlocutores.
A fala é relevante para a apuração porque indica que a conversa não se limitava a comentários sobre a disputa eleitoral: havia também uma tentativa de negociar a participação da empresa em outro grupo político.

Diguinho afirma que os participantes são porta-vozes

Um dos trechos centrais aparece por volta dos 47 minutos e 40 segundos, já na despedida do encontro, que não teve resultado positivo para o grupo. Rodrigo, o Diguinho, é questionado sobre como a situação chegou até os participantes da reunião. “Como veio essa situação para a gente?”, diz, antes de afirmar: “Veio de outra esfera. Somos apenas porta-vozes. Aqui embaixo é operacional”.

A declaração chama a atenção porque atribui a origem da situação a uma instância superior, sem identificar, nesse trecho, quem teria transmitido a orientação. No encerramento da conversa, Diguinho volta a mencionar a possibilidade de consequências administrativas. “Não é nós que multa (sic). Se acontecer alguma coisa, vocês vão lembrar de nossos rostos. Mas não é a gente”, afirma.

A fala reforça a necessidade de esclarecer a que tipo de multa os participantes se referiam, qual órgão teria competência para aplicá-la e se houve alguma atuação concreta relacionada à empresa.

Gravação é parte de denúncia que pode chegar à Polícia Federal

Os trechos fazem parte do áudio de aproximadamente 50 minutos que fundamenta a reportagem anterior do GuarulhosWeb, baseada em publicação realizada pelo portal Metrópoles, sobre o caso e o pedido de investigação envolvendo o irmão do vice-prefeito Thiago Surfista.

A apuração busca esclarecer se houve pressão para que a empresa rompesse ou alterasse sua relação com a campanha de Guti e se a menção a possíveis sanções administrativas tinha alguma relação com agentes públicos ou decisões da administração municipal.

O GWEB entrou em contato com Thiago Surfista e com seu irmão Rodrigo, mas até o momento nenhum dos dois respondeu. A reportagem pode ser atualizada caso se manifestem.

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