Na gravação, interlocutores, entre os quais Rodrigo de Azevedo Lopes Fonseca, conhecido como Diguinho, irmão do vice-prefeito Thiago Surfista (PL), que concorre ao mesmo cargo de Guti, descrevem a disputa como uma “guerra”, mencionam possíveis multas contra uma empresa fornecedora da campanha e afirmam que a orientação teria vindo de uma esfera superior.
“Sei que vocês tão só trabalhando. Mas veio lá de cima e eu só tô repassando”. A frase na voz de Diguinho demonstra que a empresa não fez nada de errado e confirma a cadeia de comando realizada pelo irmão de Surfista.
Em diferentes momentos da conversa, Diguinho e outros participantes fazem referências à disputa eleitoral, à possibilidade de sanções administrativas e à intenção de convencer a empresa responsável pelos carros de som de Guti a trabalhar com outro grupo político.
O conteúdo dá contexto às denúncias que motivaram o pedido de investigação envolvendo a suposta pressão sobre a empresa ligada à campanha de Guti.
“É uma competição. É uma guerra mesmo”
A linguagem utilizada na reunião chama a atenção pela forma como a disputa é descrita. Por volta dos nove minutos de gravação, um dos interlocutores afirma que a orientação veio de instâncias superiores. “Veio lá de cima e a gente só está repassando”, diz.
Na sequência, a conversa assume um tom de confronto direto. Um dos participantes afirma: “É uma competição. É uma guerra mesmo. Precisamos deixar o outro mais fraco”. A comparação é reforçada em outra fala: “Não tem como conciliar. É guerra. É Corinthians e Palmeiras. Israel e Palestina”.
As declarações indicam que os participantes tratavam a disputa como um confronto entre grupos políticos adversários. O contexto da conversa, conforme relatado na denúncia, é a tentativa de interferir na relação comercial entre a empresa de som e a campanha de Guti, para que ela deixasse de prestar os serviços ao candidato adversário.
Candidaturas são mencionadas como possíveis alvos
Por volta dos 12 minutos e 30 segundos, a conversa passa a mencionar a situação eleitoral de Guti e de outros nomes da política local. “Vocês nem sabem. Mas o Guti vai ser impugnado. Assim como o Jesus, o vice do Xerife foi na eleição para prefeito aqui. E não vai poder concorrer. Guti está prestes a ser impugnado”, afirma um dos participantes. As informações não procedem, já que Guti teve a candidatura confirmada pela Justiça Eleitoral.
Na sequência, a gravação registra a afirmação de que a empresa seria dispensada. A fala associa a suposta perspectiva de impugnação de candidaturas ao cenário político que os participantes apresentam à empresa. O áudio, entretanto, não comprova que uma eventual impugnação estivesse efetivamente prestes a ocorrer, nem demonstra que os interlocutores tivessem conhecimento de uma decisão judicial nesse sentido.
Multas e bloqueios de rua entram na conversa
Outro trecho relevante aparece por volta dos 16 minutos, quando um dos participantes menciona possíveis penalidades relacionadas à atividade da empresa. “Tem multa por bloqueio de rua, vocês sabem”, afirma.
A referência é feita durante a conversa sobre a relação da empresa com a campanha. O trecho ganha importância porque a possibilidade de sanções administrativas aparece no mesmo diálogo em que os participantes discutem a disputa política e tentam convencer os representantes da empresa a mudar de lado.
Por volta dos 18 minutos e 30 segundos, um representante da empresa manifesta preocupação com a situação e questiona a pressão que estaria sofrendo. “Tenho medo de vocês. A guerra tem que ser no campo político. Eu não poderia ser afetado dessa maneira”, afirma.
A resposta atribuída a outro participante chamado de Luizão é: “Nós estamos segurando porque você é meu parceiro”. O representante reage: “Se fosse meu parceiro, não estaria fazendo isso comigo. Não poderia estar vindo para cima deste jeito”. O diálogo evidencia o desconforto expresso pelo representante da empresa diante da possibilidade de ser envolvido no conflito político.
“Põe os números na mesa. Queremos vocês com a gente”
Por volta dos 23 minutos, outro trecho registra uma tentativa de convencer a empresa a se aproximar do grupo que participa da reunião e a deixar a campanha de Guti. “Põe os números na mesa. Queremos vocês com a gente”, diz um dos interlocutores.
A fala é relevante para a apuração porque indica que a conversa não se limitava a comentários sobre a disputa eleitoral: havia também uma tentativa de negociar a participação da empresa em outro grupo político.
Diguinho afirma que os participantes são porta-vozes
Um dos trechos centrais aparece por volta dos 47 minutos e 40 segundos, já na despedida do encontro, que não teve resultado positivo para o grupo. Rodrigo, o Diguinho, é questionado sobre como a situação chegou até os participantes da reunião. “Como veio essa situação para a gente?”, diz, antes de afirmar: “Veio de outra esfera. Somos apenas porta-vozes. Aqui embaixo é operacional”.
A declaração chama a atenção porque atribui a origem da situação a uma instância superior, sem identificar, nesse trecho, quem teria transmitido a orientação. No encerramento da conversa, Diguinho volta a mencionar a possibilidade de consequências administrativas. “Não é nós que multa (sic). Se acontecer alguma coisa, vocês vão lembrar de nossos rostos. Mas não é a gente”, afirma.
A fala reforça a necessidade de esclarecer a que tipo de multa os participantes se referiam, qual órgão teria competência para aplicá-la e se houve alguma atuação concreta relacionada à empresa.
Gravação é parte de denúncia que pode chegar à Polícia Federal
Os trechos fazem parte do áudio de aproximadamente 50 minutos que fundamenta a reportagem anterior do GuarulhosWeb, baseada em publicação realizada pelo portal Metrópoles, sobre o caso e o pedido de investigação envolvendo o irmão do vice-prefeito Thiago Surfista.
A apuração busca esclarecer se houve pressão para que a empresa rompesse ou alterasse sua relação com a campanha de Guti e se a menção a possíveis sanções administrativas tinha alguma relação com agentes públicos ou decisões da administração municipal.
O GWEB entrou em contato com Thiago Surfista e com seu irmão Rodrigo, mas até o momento nenhum dos dois respondeu. A reportagem pode ser atualizada caso se manifestem.
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