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AVALIAÇÃO – Novo Chevrolet Sonic chega como SUV de entrada para encarar concorrentes fortes

A Chevrolet resolveu entrar de vez em uma das faixas mais disputadas do mercado brasileiro.
Ernesto Zanon – @ernesto_zanon

O novo Sonic chega para ocupar um espaço estratégico entre os compactos da marca e o Tracker, justamente em uma categoria que ganhou concorrentes de todos os lados — e que agora também é pressionada pela chegada cada vez maior de modelos chineses.

À primeira vista, a receita parece simples: pegar a base conhecida do Onix, aumentar as dimensões, elevar a posição de dirigir, acrescentar uma carroceria com características de SUV e colocar o nome Sonic na tampa do porta-malas.

Depois de alguns dias ao volante, fica claro que a Chevrolet tentou construir um produto com personalidade própria, capaz de disputar não apenas pelo preço, mas principalmente pelo conjunto.

O mercado que o Sonic encontra hoje é bem diferente daquele que existia quando a Chevrolet usou esse nome pela primeira vez no Brasil entre 2012 e 2014, com versões hatch e sedã. O nome Sonic não é novidade. Eu dirigi bastante o modelo anterior quando ele esteve no mercado brasileiro e, naquela época, fui bastante elogioso ao carro. Era um compacto com personalidade, bom comportamento dinâmico e uma proposta interessante dentro da linha Chevrolet.

Aquele Sonic chegou ao Brasil em 2012, inicialmente importado da Coreia do Sul e depois do México. Tinha carroceria hatch e sedã, motor 1.6 Ecotec e câmbio automático de seis marchas. Era outro carro. Outra época. Outro mercado. E justamente por isso é interessante reencontrar o nome agora.

O Sonic voltou, mas praticamente tudo mudou. Sai o hatch. Entra o SUV. Sai o motor 1.6 aspirado. Entra o 1.0 turbo. Sai um compacto importado. Entra um produto desenvolvido dentro da estratégia brasileira da Chevrolet e derivado da família Onix. É quase como reencontrar um velho conhecido que voltou completamente diferente.

A primeira impressão é inevitável. Quem conhece o Onix vai identificar imediatamente a origem do Sonic. Há elementos visuais, tecnológicos e mecânicos compartilhados. Mas o novo modelo ganhou proporções próprias: são 4,23 metros de comprimento, 1,77 metro de largura, 2,55 metros de entre-eixos e 392 litros de porta-malas, algo que merece elogios em se tratando de um compacto.

A posição de dirigir mais alta e a carroceria dão ao Sonic uma presença que o Onix não tem. E o desenho, principalmente na versão RS, tenta acrescentar justamente aquilo que hoje pesa bastante na decisão de compra: imagem. O RS não está ali para transformar o Sonic em um esportivo. A proposta é outra. É fazer o SUV compacto parecer mais interessante, mais agressivo e mais desejável. E isso funciona.

O mesmo consumidor

O Sonic entra em uma categoria que praticamente virou um campo de batalha. Tem Renault Kardian, Volkswagen Tera, Fiat Pulse e agora Jeep Avenger, além de modelos de fabricantes chineses que chegam oferecendo bastante tecnologia e, em alguns casos, preços agressivos.

Por isso, não basta ao Sonic ser um bom Chevrolet. Ele precisa mostrar por que o consumidor deveria escolhê-lo entre tantas alternativas. E aqui eu acho que a avaliação pode ganhar bastante profundidade.

O Sonic RS utiliza o 1.0 turbo de 115 cv, associado ao câmbio CVT. No papel, não é o conjunto mais potente da categoria. O Kardian, por exemplo, chega aos 125 cv e 22,4 kgfm. O Tera 1.0 TSI entrega 116 cv, enquanto o Avenger nacional utiliza o 1.0 turbo com sistema híbrido leve e 116 cv. Mas números isolados contam apenas uma parte da história.

O que interessa é como cada conjunto funciona. E é justamente aí que entram os quilômetros rodados com o Sonic: resposta do acelerador, comportamento do CVT, retomadas, conforto, estabilidade, silêncio a bordo e a maneira como o carro reage quando deixa o trânsito urbano e encara uma estrada.

O Sonic Premier parte de R$ 129.990, enquanto o RS avaliado chega a R$ 135.990. Isso o coloca exatamente no meio de uma disputa complicada.  E existe uma pergunta interessante sobre a própria Chevrolet: será que a GM mudou sua relação com o preço?  A marca sempre teve uma postura muito baseada em produto, força de marca e percepção de valor. Mas o mercado atual exige uma comparação muito mais direta. O consumidor olha para o Sonic e imediatamente pode perguntar: “Por esse dinheiro, o que eu levo no Kardian? No Tera? No Avenger? No Pulse? E nos novos chineses?” Essa é uma pergunta que a Chevrolet não consegue mais evitar. E o Sonic é justamente a resposta da marca.

Neste sentido, a Chevrolet investe em equipamentos, levando em consideração que o  comprador atual de um SUV compacto não quer apenas um carro bonito. Ele quer central multimídia, conectividade, painel digital, carregamento sem fio, câmera, sensores, sistemas de segurança, assistentes de condução, bom acabamento, conforto, espaço e bom porta-malas.  E, principalmente, quer sentir que o carro entrega aquilo que está pagando. Por isso, mais importante do que listar equipamentos é avaliar como eles funcionam no cotidiano.

Depois de alguns dias com o novo Sonic, a lembrança do anterior fica inevitável. Não porque sejam carros semelhantes. Justamente porque não são. O Sonic anterior tinha uma personalidade que me agradava bastante. Era um carro que eu considerava interessante justamente por fugir um pouco do lugar-comum.

O novo também tenta fazer isso, mas dentro de um mercado completamente diferente. O desafio agora é maior. Naquela época, um bom conjunto mecânico e uma proposta diferente já conseguiam chamar bastante atenção. Hoje, o consumidor tem dezenas de opções. E algumas chegam com muita tecnologia, motores eficientes e preços agressivos.

Por isso, o maior mérito do novo Sonic seja justamente não tentar ser apenas mais um SUV compacto. Porque o Sonic RS não chega para dominar a categoria em potência. Não chega para ser o mais barato. Também não precisa ser o mais equipado em absolutamente tudo.

A estratégia parece ser outra: oferecer um produto equilibrado, com a força da marca Chevrolet, uma rede consolidada e uma combinação de tecnologia, conforto, desenho e dirigibilidade. Resta saber se isso é suficiente para conquistar espaço diante de uma concorrência que ficou muito mais agressiva.

O Sonic voltou ao Brasil com o mesmo nome, mas encontrou um mercado completamente diferente. Agora, ele precisa provar que não é simplesmente um Onix que cresceu. Precisa mostrar que tem identidade própria — e, principalmente, argumentos para enfrentar quem chegou preparado para brigar.