Mundo das Palavras

Como névoa

Os dedos de Tynôkko Costa encontraram no piano as primeiras notas de “Al dilà” como se a sequência delas tivesse ficado gravado neles, sem que o maestro tivesse consciência disto. Uma situação parecida com a de Clarice Lispector, quando ela começava a escrever e descobria que sabia o que não tinha consciência de saber.  Então ocorreu algo ainda mais inesperado: os dedos do maestro não pararam na primeira frase melódica.Reconstituíram a música inteira. E mais: em seguida se encaminharam para todas as notas de “Oh capito che ti amo”, depois para as de “Dio come ti amo”, as de “Ioche amo solo te”.
 
Durante vinte minutos quem passou pelo espaço aberto do shopping onde o maestro se apresentava mergulhou na atmosfera que as rádios criavam em São Paulo nos anos de 1960, quando na cidade imediatamente se tornavam conhecidas todas as músicas que começavam a fazer sucesso na Itália. Aquelas músicas eram ouvidas durante o dia todo por pessoas que se deslocavam pela cidade em seus carros, e, depois, em casa, adormeciam com temperaturas que nas madrugadas chegavam a zero grau. Obrigando-as, nas manhãs seguintes, a saírem para o trabalho comconjuntos de roupas pesadas, compostos de japona (uma jaqueta de panos grossos), luvas, boina, além de terem de proteger o pescoço com cachecol, tiras de panos,como peças de vestuário, desconhecidas nas regiões quentes do Brasil.
 
Na verdade, Tinôkko, com a sequência daquelas músicas,quis, inicialmente,somente testar a si mesmo, verificando se conseguiria executar algo de uma fase recuada de sua carreira, quando se apresentava em ambientes noturnos de São Paulo. Sua motivação imediata: atender a um pedido recebido ali mesmo vindo de um ouvinte. Mas ao deixar seus dedos correrem livremente pelo teclado durante todos aqueles minutossurgiu também,na atmosfera recriada em volta do seu piano,o “Jogral” da Rua Avanhadava, onde o Trio Mocotó, Luis Carlos Paraná, Adauto Santos, diante de um públicosensível formado por jornalistas e artistas, extraíam belezas insuspeitadas das criações de Paulo Vanzolini e Adoniran Barbosa.
 
E, reapareceram os estudantes da USP que, algumas quadras adiante do “Jogral”, se aboletavam nos bancos do pequeno e circular Teatro de Arena a fim de assistir “Arena Conta Zumbi”. Para chegar ali eles tinham passado pelo Teatro Record, onde num dia da semana Elis Regina apresentava o programa “O Fino da Bossa” e no outro dia Roberto Carlos comandava o “Jovem Guarda”. O teatro ficava na Avenida Consolação, ainda estreita, calçada com paralelepípedos. Por ela transitavam os últimos bondes de São Paulo, cujo ponto final ficava na Praça João Mendes,Naquela São Paulo já se sentia o medo surgido no país após a implantação da Ditadura Militar. Mas a cidade resistia através de umaprodução cultural rebelde, variada e densa. Antes de os militares silenciaram de vez o Brasil, com o Ato Institucional número 5, no final da década. 
 
Nada disto é novidade para quem viveu aquela época. No entanto, mesmo estas pessoascertamente se surpreenderão ao saber que quando a sequência de músicas italianas foi reconstituída, Tinnôko,seu piano, seus ouvintes e o shopping, estavama 2.897 quilômetros de São Paulo. Em Belém do Pará, ondeTinôkkoé conhecido e respeitado como artista criativo, cujas composições são gravadas fora do Brasilpor grandes orquestras. 
 
Uma prova de que a memória de São Paulo, cidade de imigrantes,está espalhada pelo mundo. Na capital amazônica, tão distante fisicamente dela, ficou guardada nos dedos de um maestro, sem que ele próprio soubesse disto. E, lá reapareceu, de repente. Numa névoa, apenas.

 

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