Estadão

Dólar cai 2,15%, fecha abaixo de R$ 5,00 e zera alta no mês

O dólar à vista caiu mais de 2% na sessão desta terça-feira, 17, e fechou abaixo da linha de R$ 5,00 pela primeira vez desde 4 de maio, em dia marcado por enfraquecimento global da moeda americana e apetite ao risco no exterior. Relaxamento do <i>lockdown</i> em Xangai, na China, e indicadores positivos na zona do euro e nos EUA (vendas no varejo e produção industrial) diminuíram temores de que a economia global caminhe para a "estagflação". Além disso, declarações de dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) ao longo do dia reforçaram a perspectiva de nova alta da taxa básica em 50 pontos-base em junho, afastando, por ora, apostas em um ajuste mais rápido e intenso da política monetária nos EUA.

A divisa já iniciou o dia em forte baixa e rompeu o piso de R$ 5,00 ainda pela manhã, em meio a relatos de entrada de fluxo estrangeiro para a Bolsa e desmonte de posições defensivas no mercado futuro. O dólar acentuou as perdas ao longo da tarde e chegou a ser negociado pontualmente na casa de R$ 4,92, ao registrar mínima a R$ 4,9278, em reação inicial a declarações de Jerome Powell, presidente do BC norte-americano.

Powell afirmou que há "amplo apoio" no comitê de política monetária do Federal Reserve para um novo aumento da taxa de juros em 50 pontos-base. O presidente do BC dos EUA ponderou em seguida, contudo, que a instituição pode ser mais agressiva se a inflação na arrefecer e que não hesitará se tiver que subir a taxa de juros além do nível neutro. "Teremos que reduzir crescimento para controlar a inflação", disse.

Em relação ao tom incisivo de Powell a respeito da inflação, a moeda norte-americana reduziu o ritmo de baixa lá fora. Por aqui, o dólar retornou momentaneamente ao patamar de R$ 4,95, embora ainda em queda firme. No fim da sessão, a divisa era cotada a R$ 4,9429, perda de 2,15%. Com isso, o dólar zerou a alta no mês. A baixa em 2022 voltou a ser de dois dígitos (11,35%).

"A fala de Powell reforçou o comunicado da última decisão, de aumentos de 50 pontos-base e comprometimento com o combate à inflação. Ele disse também que pode aumentar os juros acima do nível neutro, que ainda não está definido por conta da incerteza global", afirma o economista Matheus Pizzani, da CM Capital, para quem a ênfase de Powell no combate à inflação deixa a porta ainda aberta para aceleração do aperto monetário nos EUA, com alta de 75 pontos-base após a reunião de junho.

No exterior, o índice DXY – que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes – trabalhou em queda ao longo de todo dia e registrou mínima aos 103,411 pontos, em correção após a recente escalada.

As perdas mais pesadas foram contra a libra esterlina e o euro, em meio a declarações duras de dirigentes do Banco Central Europeu (BCE) e à alta de 0,3% do PIB da zona do euro no primeiro trimestre (na margem), levemente acima das expectativas (0,2%). Na comparação anual, houve expansão de 5,1%, ante expectativa de 5%.

O head da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, ressalta que a alta das taxas dos Treasuries e a inclinação positiva da curva de juros americanas (com as taxas longas acima das curtas) mostram apetite ao risco e diminuição dos temores em relação ao crescimento americano e global. "Os dados dos EUA de vendas no varejo e da produção industrial foram positivos. E a China está saindo do <i>lockdown</i>. Isso deu ânimo para o mercado. As bolsas estão subindo e o dólar perdendo força", diz Weigt.

O tesoureiro do Travelex pondera que, a despeito do alívio nesta terça, "a insegurança com o crescimento global se mantém" e pode ensejar novas ondas de fuga de ativos de risco. O real ainda se beneficia do patamar taxa de juros doméstica e dos preços elevados das commodities, mas terá seu fôlego limitado pela perspectiva de que a moeda americana siga forte no exterior, avalia. "O dólar pode cair para R$ 4,90 ou até R$ 4,80, mas já não dá para esperar que vá para R$ 4,60, porque o cenário no mundo está mais difícil e o dólar deve continuar a se valorizar lá fora", afirma Weigt.

O economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, afirma que o mercado global reflete a melhora da perspectiva para a economia chinesa, com a flexibilização das medidas restritivas em Xangai, que deve experimentar uma reabertura gradual. Isso levou a uma alta das moedas emergentes, com destaque para o rand sul-africano, o real e o peso colombiano. "Mantemos a estimativa de apreciação do real nas próximas semanas", afirma, em relatório, Oliveira, ressaltando que os preços das commodities devem se manter em níveis elevados até o fim deste ano e as divisas emergentes devem sofrer "os efeitos cumulativos do aperto monetário nos EUA" no ano que vem.

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