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Estadão

Dólar fecha em queda de 0,83% com alívio das tensões políticas

Com agenda esvaziada e sem novos sinais de tensão vindos de Brasília, o mercado de câmbio doméstico trabalhou em ritmo lento nesta segunda-feira, 13, acompanhando o tom positivo dos demais ativos domésticos. Em queda desde a abertura dos negócios, o dólar à vista oscilou menos de quatro centavos entre a mínima, de R$ 5,2015, no início da tarde (em sintonia com o auge da valorização do Ibovespa), e a máxima, de R$ 5,2411, registrada logo após a abertura. No fim do dia, o dólar era negociado a R$ 5,2236, em queda de 0,83% – o que levou a valorização acumulada no mês para apenas 1%. Na B3, o contrato futuro de dólar para outubro – termômetro do apetite por negócios – tinha giro baixo, na casa de US$ 9 bilhões.

O mercado aproveitou a trégua na disputa entre os Poderes – na esteira da "carta à Nação" de Jair Bolsonaro na semana passada – e a baixa adesão aos protestos contra o presidente no domingo (dada a ausência dos partidos de esquerda), para aparar os prêmios de risco. Avalia-se que a possibilidade de impeachment de Bolsonaro, que pareceu crível após as declarações do presidente nas manifestações de 7 de setembro, diminuíram a quase zero. A expectativa é a de que a calmaria no front político-institucional, embora ainda vista com certo ceticismo, abra espaço para algum avanço da pauta econômica no Congresso, como a reforma administrativa e, sobretudo, a solução para o imbróglio dos precatórios.

Eventual substituto de Bolsonaro, o vice-presidente, Hamilton Mourão, rebateu hoje à tarde informações de que tem uma "agenda paralela" e disse que "não aceita" conversas sobre o impeachment. Instigado a falar sobre a relação entre os Poderes, Mourão afirmou que o presidente, com a divulgação da "carta à Nação", busca uma "reaproximação com o STF" e que o país começa a semana "com pauta positiva e muita coisa a ser tratada no Congresso".

Em live realizada pela Genial Investimentos no início da tarde, o secretário do Tesouro Nacional, Jeferson Bittencourt, reconheceu que há um desafio em aberto em relação ao Orçamento de 2022, já que a ampliação do programa Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil, depende de uma resolução para o pagamento de precatórios. E isso só vai ser conseguido se houver "harmonia entre os Poderes".

Bittencourt refutou a leitura de que a retirada do pagamento de precatórios do teto de gastos representaria um descontrole de despesas. Embora tenha voltado a defender a PEC dos Precatórios como a melhor alternativa para o pagamento de quase R$ 90 bilhões em dívidas judiciais, o secretário disse que a equipe econômica está aberta a "outros modelos".

Na avaliação do economista-chefe da Integral Group, Daniel Miraglia, os ativos domésticos, mais a Bolsa que o câmbio, passaram hoje por um "movimento natural" de correção, em razão da diminuição das tensões políticas. "O mercado já começa a colocar no preço uma costura mais adequada com o STF para a questão dos precatórios, que é favorecida por esse ambiente político mais calmo. Mas o cenário continua ainda bem desafiador", afirma Miraglia, chamando a atenção para o debate em torno do Orçamento e o potencial impacto negativo de um avanço da reforma do Imposto de Renda no Senado.

Também ajuda a dar sustentação ao real a perspectiva de que o Banco Central acelere o passo e aumente a taxa Selic em 1,25 ponto porcentual, para 6,50% ao ano, no próximo dia 22, e que possa levar a taxa para mais de 8% no atual ciclo de aperto monetário.

O Banco JP Morgan divulgou hoje que elevou sua projeção para a taxa Selic de 7,5% para 9%, com mais três aumentos de 1 ponto porcentual neste ano e mais um de 0,75 ponto no início de 2022. O Banco reconhece, porém, que há chance de o BC acelerar o ritmo de aperto, apesar dos riscos para a economia.

O especialista em câmbio da Valor Investimentos, Zeller Bernardino, ressalta que houve uma elevação da mediana agregada das projeções para a taxa de câmbio no fim deste ano, de R$ 5,17 para R$ 5,20, no Boletim Focus. "Apesar do alívio de hoje, os investidores seguem de olho nas tensões políticas em Brasília, sobretudo na questão fiscal e na inflação", afirma.

Entre os indicadores do dia, dados do ministério da Economia mostraram que a balança comercial registrou superávit de US$ 1,399 bilhão na segunda semana de setembro, levando a um saldo positivo de US$ 2,043 bilhões no acumulado do mês (até o dia 12). Em 2021, o superávit comercial soma US$ 2,043 bilhões.

Lá fora, o índice DXY – que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes – operou em leve alta, na casa dos 92,600 pontos. A moeda americana tinha um comportamento misto frente às divisas emergentes e de países exportadores de commodities.

A expectativa do mercado é pela divulgação, amanhã, do índice de preços ao consumidor (CPI) nos Estados Unido em agosto, que servirá de base para a calibragem das expectativas em torno o início da redução de compra mensal de bônus ( tapering ) pelo Federal Reserve. O BC americano anuncia sua próxima decisão de política monetária no dia 22 (mesmo dia do Copom), quando também trará novas projeções econômicas e estimativas para o começo da elevação da taxa de juros.

Em relatório, a Armor Capital afirma que espera o anúncio do tapering no encontro do Fed em novembro, já que "possivelmente até lá o fluxo de dados de emprego tende a melhorar".