Estadão

Em Tokyo Vice, um jornalista americano investiga a Yakuza

Um americano branco de 1,90 metro de altura dificilmente passa despercebido no Japão – mesmo em Tóquio, uma cidade gigantesca e visitada por muitos estrangeiros. Não são apenas as feições, nem a altura, mas a maneira de se vestir e o comportamento. No final dos anos 1990, então, era mais difícil não sobressair, como bem sabe o jornalista Jake Adelstein, que deixou o Missouri ainda adolescente para estudar japonês na Universidade Sophia e foi o primeiro estrangeiro do jornal Yomiuri Shinbun, um dos maiores do país, cobrindo crimes – mais especificamente, a Yakuza. Tokyo Vice, que tem como criador da série J.T. Rogers, amigo de infância de Adelstein e vencedor do Tony pela peça Oslo, conta essa história a partir de hoje na HBO Max.

Mesmo tendo como base a autobiografia do repórter, o Adelstein da ficção, lógico, não é exatamente igual ao da realidade. "Ele me deixou livre para fazer o que eu quisesse", afirmou Rogers, em entrevista ao <b>Estadão</b>, por videoconferência. "Afinal, é uma série dramática e não uma memória", explicou Rogers. Adelstein estava, porém, sempre à disposição do ator que o interpreta, Ansel Elgort. "Ele me levou ao julgamento de um pai pelo assassinato do filho", explicou Elgort. Em teoria, os dois ficariam do lado de fora. Mas Adelstein não costuma obedecer às regras, mesmo em um país em que as regras costumam ser tão obedecidas, e entrou na sala. "Eu quase não entendia japonês na época", garantiu Elgort. "Mas foi uma maneira excelente de entender como Adelstein é."

Acompanhar o jornalista foi apenas uma das lições de casa do ator, que estava saindo de meses intensos de canto e dança em Amor, Sublime Amor quando mergulhou no universo de Tokyo Vice. Foi na época das filmagens do musical de Steven Spielberg que Michael Mann foi contratado para dirigir o piloto da série – os outros episódios ficaram com Josef Kubota Wladyka, Hikari e Alan Poul. Spielberg tinha produzido Colateral, dirigido por Mann e estrelado por Tom Cruise e Jamie Foxx. "Spielberg me disse que ele ia me fazer trabalhar duro, mas, se eu estivesse disposto a me dedicar, que seria ótimo", lembrou Elgort. Em seguida, ligou para Foxx. A resposta foi a mesma: nada de corpo mole. O ator encarou quatro horas diárias de japonês – Mann queria que fossem nove, mas foi convencido pelo produtor Alan Poul de que Elgort ainda precisava aprender aikidô e a se comportar como jornalista.

<b>DENÚNCIA</b>

No começo, o ator falava o básico. Mesmo quando chegou ao Japão, sua interação em uma loja de bonsais foi quase toda baseada na mímica – ele conta com orgulho que, hoje, consegue ter uma conversa. Mas aí a produção foi interrompida por oito meses por causa da covid-19. Nesse meio-tempo, surgiu uma denúncia de assédio contra Elgort. Segundo o jornal The New York Times, houve uma investigação interna, mas a decisão foi por mantê-lo no papel principal.

Elgort continuou estudando. No set, ele contou com a ajuda de Ken Watanabe, um dos grandes atores japoneses, com experiência em produções americanas como O Último Samurai e montagens da Broadway como O Rei e Eu. Watanabe interpreta Hiroto Katagiri, um detetive que investiga os crimes da Yakuza e serve de guia para Adelstein nesse meio. "Ele precisa ficar próximo das gangues, então é como se tivesse duas caras", explicou Watanabe.

A Yakuza hoje não tem mais a mesma força que no período retratado em Tokyo Vice, o final dos anos 1990. Mesmo assim, Watanabe admitiu não saber muito sobre a organização. "Não temos muita informação sobre esse submundo", revelou. Segundo ele, o livro de Adelstein nunca foi lançado no Japão. Havia consultores no set sobre o trabalho policial e sobre a atuação dos gângsteres. A intenção de J.T. Rogers era fazer uma série criminal que não fosse glamourosa. "Eu queria que fosse baseada na realidade", observou. "Não queria gângsteres e policiais descolados, mas a realidade do que era ser um soldado da Yakuza nessa época, violento, mas também com dilemas morais." A série também não esconde o machismo nem o preconceito contra estrangeiros.

No caso de Jake Adelstein, o objetivo era mostrar como a ideia de ser o primeiro jornalista "gaijin", como o personagem é chamado o tempo todo na série, escrevendo em japonês em um jornal japonês, também teve seu preço. "Como é ver cadáveres, pais chorando pelos seus filhos que se mataram, maridos que se foram? Ou sofrer violência física ao procurar a verdade? O que isso faz com você?", perguntou Rogers.

<b>REPÓRTER E MONGE</b>

Adelstein acha que vai chegar abafando. Ele tenta não ser um turista: estuda japonês avidamente, compra comida no combine (lojas de conveniência), vai aos restaurantes locais. Mas seu melhor amigo mesmo lhe diz que ele se acha melhor, como todos os americanos. Sua altura e sua face não são os únicos empecilhos na sua adaptação à cultura local. Para os americanos da equipe e do elenco, também foi um aprendizado. "Eles fazem tudo com muito orgulho e dão 100%", contou Elgort. O verdadeiro Jake Adelstein, mesmo que ainda se destaque na multidão, continua por lá, como repórter e monge budista.

As informações são do jornal <b>O Estado de S. Paulo.</b>

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