Política

Entrevista – Pré-candidato a governador, Felicio Ramuth fala sobre Metrô e Rodoanel em Guarulhos

Após quase três décadas com nome vinculado ao PSDB, Felicio Ramuth deixou a sigla e filiou-se ao PSD para ser candidato a governador. Ex-prefeito de São José dos Campos, ele visitou a redação do GuarulhosWeb na última quinta-feira, 5/5, e concedeu entrevista exclusiva ao portal.

Felicio Ramuth, de 53 anos, é empresário, formado em Administração, com MBA em Gestão Pública pela Faculdade Getúlio Vargas. Começou a vida pública como secretário municipal de Transportes, foi presidente da Urbanizadora Municipal (Urbam) e secretário de Comunicação. Também assumiu a presidência do Diretório Municipal do PSDB e da Agência Ambiental do Vale e foi vice-presidente de Mobilidade Urbana da Frente Nacional de Prefeitos (FNP).

Dentre os assuntos abordados, Ramuth, durante 30 minutos, falou sobre o afastamento do PSDB, os embates com o ex-governador João Doria – enquanto eram colegas de partido – e a espera do 2º maior município de São Paulo pelo Metrô e pelo Rodoanel. Veja mais abaixo.

Por que você saiu do PSDB?

Foram 28 anos. Logo que eu assumi (a Prefeitura de São José, em 2016) dois anos depois, eu começava a dizer que o PSDB estava saindo de mim, e não eu estava saindo do PSDB. O partido de hoje é muito diferente daquele que me filiei quando tinha 23 anos de idade. Ao longo dos anos, o PSDB começou a perder a capacidade de renovação. A gente sempre viu os mesmos candidatos ao governo, e isso acabou, na minha opinião, fazendo com que o PSDB perdesse a oportunidade de utilizar novos talentos.

Além disso, eu tive muitos embates na pandemia com o governador João Doria. Eu defendia que as cidades tivessem autonomia para tomar as suas decisões e, infelizmente, isso não foi possível. Em junho de 2020 escrevi um artigo dizendo que era um governo longe das pessoas. A gente viu ao longo da pandemia uma situação em que houve uma discrepância em relação ao resultado econômico de alguns setores em detrimento de outros. Tem setores que ganharam muito dinheiro e outros perderam muito, e a gente precisava equilibrar. As decisões tomadas no conforto do ar-condicionado do Palácio dos Bandeirantes não necessariamente significava o melhor para as pessoas. Por exemplo, quando você vai fechar um barbeiro, você não pensa que ele tem uma cadeira na garagem da sua casa e que quer prestar o serviço ao cidadão. Além disso, nas prévias, nós fomos o único diretório a apoiar o Eduardo Leite (eleições para presidente).

Era natural que o apoio fosse a Doria, afinal, ele era o gestor líder no seu estado. Por que o apoio a Eduardo Leite nas prévias tucanas?

No caso específico da prévia, a gente definiu pelo Eduardo, não pelos defeitos do Doria, mas sim pelas qualidades do Eduardo Leite. Ele é um bom gestor, que fazia política com o jeito mais parecido com o nosso de fazer e também tinha mais viabilidade eleitoral do que o João Doria, o que, de fato, está se concretizando. Eu continuei defendendo inclusive a vinda do Leite para o PSD. Se ele se viabilizar candidato, não tenha dúvida que eu serei um dos defensores.

E sobre a saída de Alckmin para ser vice de Lula, qual a sua opinião?

Eu tenho uma grande admiração pelo Geraldo Alckmin, por toda sua carreira. É um político ético, que inclusive fez uma declaração antes de concretizar a ida dele ao PSB que, independente de qual partido fosse, gostaria de prestigiar a mim por ter sido um político legal. Isso não significa que eu concorde com esse passo dele. Aliás, acho que é, no mínimo, uma incoerência absoluta por aquilo que nós, em conjunto, pregamos e lutamos.

Ele entende que essa é uma missão dada a ele com o objetivo de ajudar a retirar o atual presidente do cargo. Eu não enxergo assim e, ainda que fosse uma missão, ela não mereceria que a gente agisse de forma incoerente. Portanto, tenho uma história com ele da qual me orgulho, mas discordo dos caminhos adotados. Quem mudou foi ele, eu não mudei.

Então, hoje, para quem vai seu apoio no 1º turno das eleições presidenciais?

No 1º turno meu apoio vai para algum novo candidato que ainda deve surgir. Alguém desta terceira ou nova via, como a Simone Tebet ou o Eduardo Leite. Minha dica é que no 1º turno se escolha pelo melhor, assim como fiz na última eleição pelo Geraldo Alckmin, inclusive. No 2º eu tinha que fazer uma opção. Eu não gosto de votos brancos e nulos e fiz a opção pelo Bolsonaro. Me arrependi, não porque preferia ter votado no outro, mas pelo governo que ele fez.

Como prefeito, você teve mais de 56% de avaliação de ótimo ou bom, mas a sua renúncia ao cargo não foi bem vista pela população da cidade. Como você enxerga isso?

Esse é um bom sinal. Sinal que a população gostaria que eu permanecesse no cargo e gerenciando a cidade. Se a gente somar ótimo, bom e regular, dá 82%, se somar só “aprova” e “desaprova”, dá por volta de 78% de aprovação, contra 14% de reprovação e o restante não soube opinar.

Isso mostra que a gestão acertou muito mais do que errou, e que a população queria entender melhor como era essa saída. Ao longo dos últimos meses a gente conseguiu explicar que os compromissos de gestão continuariam com meu vice, que era do meu partido e fez campanha junto comigo. Ele tem competência e ética para estar à frente da Prefeitura. Aos poucos, a população vai entendendo que, ainda ao me perder, a cidade ganha bastante tendo uma gestão séria e a oportunidade de mostrar a cidade na campanha e, depois, como governador, ajudar a região.

Alguns governos tucanos, como Doria e Serra, ao abandonarem a Prefeitura, ficaram marcados e foram rejeitados na capital. Você teme algum rótulo em São José?

São casos completamente diferentes. Serra e Doria deixaram a Prefeitura (da capital) no primeiro mandato, com um ano e meio. Eu prestei serviços ao município (São José dos Campos) por 13 anos, oito anos como secretário e cinco anos e três meses como prefeito. No município, as pessoas me reconhecem e me agradecem com muito carinho. Mas a possibilidade é zero de eu voltar à Prefeitura. A minha missão está cumprida e a gente acredita em renovação, ainda que corra risco de perder a eleição.

Recentemente você esteve no evento de concessão da Dutra, em São José. Você aprova o modelo adotado?

Sim. A nova concessão é o que sempre defendi para tudo. Infelizmente, a gente vê algumas concessões sendo renovadas. Acho que a Dutra seguiu um bom caminho, porém com alguns erros. Como pontos positivos, por exemplo, no trajeto original, o trecho de São José dos Campos não seria duplicado de forma integral. Nós conseguimos mostrar que havia um erro e o governo federal atendeu a demanda. Eu mesmo estive em todas as audiências públicas realizadas em São Paulo e inclusive fiz uma denúncia na época. No edital tinha trecho para duplicar que já estava duplicado. Por fim, eles consertaram. Há o acerto de ser um novo edital, de ter reduzido tarifas para motos, mas tem alguns erros, como eliminar o trecho paulista da Rio-Santos e fazer o subsídio cruzado. Hoje o caminhoneiro que anda na Dutra paga para a Rio-Santos ser duplicada. O presidente tem o sonho de transformar Angra (dos Reis – RJ) em Cancún e está saindo do bolso dos caminhoneiros. Não deveria haver subsídio cruzado. O outro erro é de não abaixar o pedágio para veículos, e sim apenas para veículos frequentes, que passam todos os dias. Eu aprendi nos últimos anos que anunciar concessão como realização é uma ilusão. A gente vê aqui no aeroporto de Viracopos, ou no Galeão, no Rio de Janeiro, que foram anunciados como grandes investimentos e depois devolvidos. Primeiro tem que acontecer pra depois comemorar, pois muitas concessões, lamentavelmente, não acontecem. Houve uma concessão que o PT reduziria os valores de pedágios e uma empresa espanhola ganhou (menção ao ano de 2007, quando a OHL Brasil venceu o leilão para explorar cinco dos sete lotes de rodovias no país). A Dutra (Nova) é uma empresa séria, que deve cumprir o contrato.

Algumas pautas são motivo de ceticismo da população em Guarulhos, como o Metrô. Dentro do seu programa existe alguma ação para a entrega do transporte no município?

Recentemente, mais uma vez o governo anunciou que o Metrô vai chegar até Guarulhos – aliás, esse é o ano estadual das inaugurações das pedras fundamentais. Mas, nós vamos considerar esse compromisso, independente do governo prometer ou não, como fundamental para iniciar ao longo do mandato. Há processos que são de Estado, e não de gestão. O Metrô é um deles.

E o trecho Norte do Rodoanel?

Essa não é uma obra de Guarulhos. É uma obra do Estado, que tem aspecto com prioridade ainda maior, que vai beneficiar não só Guarulhos, mas, por exemplo, São José dos Campos, que vai acessar as estradas do Sul do país utilizando o trecho norte.
Eu diria que se houvesse um recurso seria esse. É um compromisso da retomada das obras, bem como detalhamento das datas de entrega. É importante ver, porque às vezes uma obra fica parada muito tempo, se existe um trabalho de recuperação do que já foi feito. A gente precisa analisar o tempo, mas com certeza vamos desenrolar este problema e iniciar essas obras para concluí-las no 1º mandato como governador se a população confiar a nós o seu voto.

Houve algum pedido oficial de Guarulhos ao pré-candidato?

Tive oportunidade de encontrar o prefeito (Guti), vereadores e lideranças da bancada do PSD para ouvir demandas da cidade, inclusive nas áreas de saúde e segurança pública. Surgiram duas demandas importantes que temos propostas importantes, não só para Guarulhos, mas para todo o estado.

A gente sabe que há um governo (estadual) que anuncia um superávit de R$ 52 bilhões, mas que deixa faltar aparelho auditivo e medicamento de alto custo para quem precisa. Uma das propostas é digitalizar o pedido de medicamento de alto custo e evitar a burocracia. Precisamos facilitar o processo e entregar em casa, pois a logística de distribuição é muito arcaica.

Segundo, aproveitar a estrutura da Saúde. Aqui há dois hospitais que prestam serviços à população (Geral e Padre Bento) e falamos da possibilidade de expandir o atendimento oncológico para atender aqui e a outras cidades. Queremos contratar serviços daquilo que já tem disponível de estrutura, aumentando os contratos de hospitais regionais e filantrópicos, claro que com a transparência necessária.
Por fim, o Cross (sistema que regula as transferências de pacientes). Esse sistema precisa ser modernizado e ter inteligência pra ser mais ágil. Para isso, precisamos digitalizar todas as UBS e cidades do estado. Precisamos ter a informação em tempo real para que possamos tomar a decisão certa na hora das transferências, que às vezes demoram dias. Nós divulgamos a quantidade de leitos durante a pandemia e, por que não, divulgar também da rede comum? Por que não saber quantos leitos temos de UTI e enfermaria na rede do Estado? É importante para a população cobrar e o gestor ficar atento.

Na segurança, a gente defende a integração das forças. Em São José a gente conseguiu, a cada dois meses, sentar à mesma mesa com todas as polícias, deixando as vaidades de lado. Criamos um grupo de trabalho para prestar o melhor serviço ao cidadão. São José hoje tem os melhores indicadores de segurança dos últimos 20 anos. Investimos em mil câmeras com reconhecimento facial, rastreamento de placas e queremos implantar 30 mil para o estado de São Paulo, além de equipar a Polícia e melhorar o salário de entrada das forças de segurança.

O pré-candidato, segundo o Paraná Pesquisas, é colocado com 1% das intenções. Como enxerga esse índice?

Quando fui eleito pela primeira vez, comecei a campanha com 2% e terminei com 62%. Fui reeleito no segundo mandato, mas já em situação diferente.

Para o governo do Estado, essa é a eleição mais aberta da dos últimos 30 anos. Na mesma pesquisa do Paraná, na espontânea, 74% não sabem em quem votar, 20% em branco ou nulo e o restante diluído. É diferente da federal, que está cristalizado o voto da espontânea entre Lula e Bolsonaro. Portanto, estou muito tranquilo para que, ao longo de pré-campanha e campanha, a gente possa mostrar as nossas propostas, o jeito de fazer política e a nossa experiência em boa gestão.

Se a população quiser continuar no “mais do mesmo”, ela pode optar pelo atual governador. Se ela quiser votar no candidato do Lula (alusão a Fernando Haddad), que foi eleito o pior prefeito da história nas avaliações ao lado do Celso Pitta, tem a opção do Haddad. Se ela quiser votar em um governo de direita, em um candidato que vem de fora e com pouca experiência pública de gestão, tem a opção do governo Bolsonaro. Nós vamos mostrar que somos uma via nova, mas com experiência política e administrativa para transformar a vida das pessoas para melhor.

Na fala final, quando o pré-candidato teve um tempo disponível para tratar de um tema livre, ele abordou a educação; ouça o áudio: