O Brasil repete sua segunda pior nota no índice global de percepção da corrupção. A notícia, que deveria ser um alerta, quase passa batida. Afinal, a gente já se acostumou com essa ideia de que a corrupção é um mal inerente ao nosso país. Uma espécie de DNA nacional!
Mas, e se eu disser que essa narrativa é na verdade, uma ferramenta? Uma arma nas mãos de quem realmente quer implodir o sistema, de quem vê na desconfiança generalizada um atalho para o poder.
Não se trata de negar a existência da corrupção, nem de relativizar seu combate. Trata-se de compreender as nuances do termo e o modo como ele vem sendo usado no debate público.
Saul Alinsky, autor do livro “Regras para Radicais”, ensinava a “escolher o alvo, congelá-lo, personalizá-lo”. E a corrupção é a arma perfeita. Não é um problema sistêmico complexo, mas sim a falha moral de indivíduos, de partidos, de “elites”. É a personalização do mal, a simplificação de um problema em uma figura, o que facilita odiar. E ao fazer isso, a gente congela o debate, impede qualquer nuance, qualquer tentativa de entender as causas profundas. A corrupção, então, não é mais um desvio, mas a essência do outro, do inimigo a ser combatido.
Yascha Mounk, em “O Povo contra a Democracia”, nos alerta para como essa retórica é usada por populistas. Eles não querem reformar o sistema, querem derrubá-lo. O discurso anticorrupção, nesse contexto, vira um cavalo de Troia. Ele promete “limpar” a política, mas na verdade busca deslegitimar as instituições democráticas, os freios e contrapesos, tudo aquilo que impede o poder absoluto.
A ideia é simples, se o sistema é inerentemente corrupto, então a “vontade do povo” deve prevalecer, mesmo que isso signifique atropelar normas, direitos e minorias. É a crise da narrativa estatal levada ao extremo, onde a própria ideia de Estado de Direito é questionada em nome de uma suposta “pureza” popular.
E essa é a linguagem da destruição em ação. Não se busca o diálogo, a construção de pontes, mas a aniquilação moral do adversário. A corrupção não é um tema para debate, mas uma sentença. É um martelo que bate sem parar, que não permite réplica, que não aceita defesa. E, nesse cenário, os dados, esses números frios e aparentemente objetivos dos índices de percepção, são apresentados como a prova cabal, o veredito inquestionável. Mas quem coleta esses dados? Quem os interpreta? E, mais importante, quem se beneficia dessa interpretação que, muitas vezes, é tão conveniente?
Essa engenharia social é perversa. Ela identifica as feridas morais da sociedade, as insatisfações legítimas, e as canaliza para um alvo específico. A corrupção. Mas não a corrupção em sua complexidade, em suas raízes históricas e estruturais, mas a corrupção personificada, simplificada, ideal para ser odiada. E ao fazer isso, a gente se afasta do debate real sobre desigualdade, sobre justiça social, sobre os problemas que realmente afetam a vida das pessoas.
A polarização se aprofunda porque a corrupção vira um rótulo fácil para atacar o “outro”, o adversário político, sem precisar discutir as ideias de verdade. Então, quando a gente vê o Brasil repetindo a nota baixa no índice de corrupção, talvez seja hora de olhar para além do número. De questionar a narrativa. De perguntar quem ganha com essa história? E o mais importante, quem perde?
Porque, se a gente não fizer isso, a corrupção vai continuar sendo um espetáculo, para nos afastar do debate principal e nos deixar com a ilusão de que estamos combatendo o mal. Quando na verdade, estamos apenas reforçando um sistema que nos mantém reféns, divididos e radicalizados.
Rodrigo Buffo é jornalista, especialista em Jornalismo de Dados e estrategista em Comunicação Política


