Estadão

Pelo menos nove capitais, entre elas São Paulo, adotam iluminação de LED

Cresce no País a procura pela instalação de redes de iluminação pública por LED, uma tecnologia de luz que permite a troca das lâmpadas de sódio (amarelas) pela claridade branca dos diodos emissores de luz. De acordo com especialistas, gestores públicos e moradores que já convivem com essa iluminação, ela reduz gastos públicos com energia elétrica e amplia a sensação de segurança.

O Brasil tem hoje pelo menos nove capitais usando luz de LED nas ruas, entre elas São Paulo, Curitiba e Salvador, além de centenas de municípios interessados ou com a troca em andamento. Na capital paulista, o LED alcança 541 mil lâmpadas, 88,5% do parque de iluminação pública. Dados da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), obtidos por meio da Coordenadoria de Gestão da Rede Municipal de Iluminação Pública (Ilume), mostram redução de pelo menos 52% no consumo de energia no município.

O sistema começou a ser adotado em larga escala na capital nas ruas do bairro Heliópolis, zona sul, em projeto de 2015 considerado um sucesso pelos moradores. Segundo o engenheiro eletricista César Teixeira, que participou de estudos para a Parceria Público Privada (PPP) para uso do LED em São Paulo, os dados apontam que dependendo da característica do sistema, pode haver até 60% de economia de energia em relação ao modelo convencional.

Teixeira argumenta que cada cidade tem uma característica própria de iluminação pública e que é preciso analisar o ambiente urbano para se descobrir o potencial de economia. Diretor da empresa Opus 1 Engenharia, de Salvador, o engenheiro explicou que não opera contratos em andamento na capital paulista, mas comemora o sucesso da iniciativa paulistana. Ele ressaltou que já há diversas cidades explorando essa mudança e que muitas delas seguem o modelo de PPP de São Paulo. "Hoje já são mais de 50 contratos em vigor no País e o interesse pela troca é crescente", disse.

Segundo o especialista, cerca de 400 municípios têm interesse na implantação do sistema de LED e muitos já estão com processos de troca em andamento. O engenheiro explicou que, em princípio, não há necessidade de substituição de redes de abastecimento de energia para a instalação das lâmpadas de LED. "A troca determina redução da carga instalada e quando isso acontece, normalmente, não há necessidade de qualquer alteração na rede de alimentação de energia elétrica, pelo contrário, há mais capacidade na rede elétrica do que o LED vai demandar", esclareceu.

<b>Curitiba</b>

Com um sistema de 152 mil pontos de luz na iluminação pública em Curitiba, Rodrigo Araújo Rodrigues, o secretário municipal de Obras da capital do Paraná, conta que pelo menos 65 mil desses pontos já foram modernizados. O plano de substituição das lâmpadas foi iniciado em 2019 e, segundo Rodrigues, a ideia é completar a troca em dois ou três anos. "Nossos dados mostram uma economia de 50% pelo sistema de LED", afirmou. O secretário prevê para este ano a substituição de mais de 17 mil pontos na capital paranaense.

Rodrigues argumentou ainda que embora a lâmpada de LED seja mais cara, por unidade, o ganho em relação às lâmpadas antigas depende dos reatores a serem trocados e do local de instalação – se é uma avenida ampla ou uma rua mais estreita. A economia, argumenta, ocorre no consumo de energia menor e por conta da maior durabilidade da lâmpada.

De acordo com dados da prefeitura de Curitiba, o preço unitário de uma luminária de vapor de sódio/metálico completa é de R$ 132, enquanto a de LED vai a R$ 735. Mas essa diferença de preço é compensada no final pela redução do número de substituições de equipamentos queimados ou com defeitos.

A fama da luz branca também se espalha por Salvador. A prefeitura local tem um programa que previa, no início do ano, adicionar os novos pontos dessa luz em mais de 640 ruas, com investimento de R$ 4,5 milhões no programa Iluminando Nosso Bairro (INB). Em janeiro, segundo o município, o programa já atingia 70% da capital.

<b>Heliópolis</b>

De acordo com moradores de São Paulo que já se habituaram a contar com a luz de LED nas ruas à noite, os ganhos vão além da economia. "Fico feliz de ver que uma experiência que já vivemos aqui em Heliópolis esteja sendo expandida para outros locais e cidades", disse Antônia Cleide Alves, presidente da União dos Moradores de Heliópolis (Unas-Heliópolis), uma das primeiras comunidades da periferia a receber a troca da luz amarela.

A área de um milhão de metros quadrados, que abriga cerca de 200 mil moradores, ganhou o sistema de LED em 2015. A mudança já vinha ocorrendo na cidade desde 2013, com a troca gradual de cerca de 20 mil pontos, mas com a mudança em Heliópolis o programa foi intensificado por meio da PPP. A licitação foi paralisada na Justiça em 2018, com questionamentos sobre a legalidade do processo, mas as ações foram arquivadas sem comprovação de irregularidades e a ideia foi retomada em 2019.

As áreas prioritárias, segundo a Prefeitura, eram bairros com maiores índices de criminalidade – roubos de celulares, assaltos, estupros e lesão corporal -, principalmente em áreas escuras de bairros como Campo Limpo, São Mateus, Capela do Socorro, Butantã, além da área da Sé, no centro. Em Heliópolis, até hoje os moradores comemoram. "Essa luz melhorou o nosso bairro, trouxe mais tranquilidade para as famílias", disse a presidente da Unas.

<b>História da iluminação</b>

Dados da história da iluminação da capital paulista mostram que as primeiras redes na cidade surgiram nos anos 1830, com lampiões abastecidos com azeite. Em 1847, contam historiadores, a Câmara de Vereadores aprovou a contratação de "uma fábrica de gás iluminante" a partir do carvão. Depois, veio o "gás de hulha" (1863) e, dez anos após, havia 700 lampiões a gás na cidade, que se multiplicaram até 1936.

Mas a luz elétrica também já estava sendo instalada em 1879. No ano de 1905 foram instaladas as primeiras lâmpadas elétricas da cidade. Ainda de acordo com a história paulistana, o primeiro contrato da Light com o governo do Estado para iluminação pública foi firmado em 1911. Hoje, a ENEL é contratada apenas para o fornecimento de energia elétrica. Desde 2019 o município faz a manutenção, ampliação e modernização da rede.

<b>Rio</b>

Em 2020, o telefone 1746 da prefeitura do Rio de Janeiro, que recebe reclamações e solicitações dos moradores, registrou quase 78 mil queixas por lâmpadas apagadas ou piscando nas ruas – média de uma queixa relatada a cada sete minutos. Mas a administração espera que essa situação melhore com investimentos de R$ 1,4 bilhão.

Eles devem ser feitos pelo consórcio que em 2020 firmou uma parceria público-privada com o município para administrar a iluminação pública durante 20 anos. Em troca, receberá parte da taxa de iluminação paga pelos moradores e poderá explorar comercialmente alguns serviços.

A capital fluminense tem 450 mil pontos públicos de luz. Setenta e cinco por cento deles ainda usam lâmpadas de vapor de sódio de 150 watts. A PPP da prefeitura com o consórcio Smart Luz prevê que até o final de 2022 toda a iluminação pública da cidade seja de lâmpadas de LED de 70 watts. Desde que o contrato foi assinado, em 28 de abril de 2020, na gestão de Marcelo Crivella (Republicanos), o consórcio trocou 25% das lâmpadas (112.500).

Segundo a Companhia Municipal de Energia e Iluminação (Rio Luz), foram atendidos 121 bairros e 102 favelas, que foram selecionados conforme três critérios. São eles: IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, que leva em conta dados de educação, expectativa de vida ao nascer e renda) mais baixo em comparação com outros bairros; índice de criminalidade mais alto e maior índice de apagamento.

Esse índice indica a proporção de pontos apagados sobre o total de lâmpadas existentes. A meta da RioLuz é reduzir para no máximo 2% (dois pontos apagados a cada 100 existentes). Mas hoje esse indicador ainda é muito mais alto, admite o presidente da companhia municipal, Ricardo Piquet.

"Essa parceria público-privada foi discutida por vários anos, o contrato (da prefeitura com o consórcio) demorou a ser assinado e durante esse período nenhum investimento foi feito. Então, a situação piorou bastante", afirma ele. Até a PPP ser firmada, a Rio Luz era responsável pela iluminação no Rio. Mantinha cerca de 30 contratos com prestadoras de serviços, segundo Piquet. O consórcio teve cinco meses para se organizar a partir da assinatura do contrato. Só em outubro de 2020 se tornou responsável pela iluminação. Desde então, cabe à Rio Luz fiscalizar o serviço e atuar em eventos, como o Carnaval.

Entre os bairros que já contam com luz de LED estão Pavuna e Irajá, na zona norte, ruas da Muzema, de Curicica e Antares, na zona oeste, e Rocinha e Copacabana, na zona sul. Principal bairro turístico do Rio de Janeiro, Copacabana está longe de atender os critérios usados para selecionar os bairros. Mas foi escolhido porque o trabalho pode ser feito à noite e também de forma segura. As informações são do jornal <b>O Estado de S. Paulo.</b>