Estadão

É preciso ter paciência, precisamos ser cautelosos, há muitos riscos, diz diretora do BC

Em linha com a avaliação de "pouso suave" do presidente do Banco Central, Roberto Campos , a diretora de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos do BC, Fernanda Guardado, disse nesta terça-feira, 5, que o sacrifício da economia no Brasil neste ciclo de aperto monetário foi menor que em últimos ciclos de alta de juros e também na comparação com outros países.

"É preciso ter paciência, precisamos ser cautelosos, há muitos riscos. A política monetária está funcionando. O hiato vai abrir um pouco, mas longe de outros ciclos", afirmou Fernanda Guardado, em live promovida pela Bradesco Asset.

Mais uma vez, a diretora chamou atenção para a inflação de serviços, que tem sido mais inercial, ou "pegajosa" como se diz no exterior.

Ela lembrou que a desinflação mais lenta de serviços já estava no cenário do BC, mas avaliou que em 2024 a inflação como um todo deve ter uma "descida bem consistente". "A inflação de 2024 ainda está acima da meta, com todos os riscos no cenário, mas estamos confiantes na nossa estratégia de política monetária", ponderou.

Fernanda Guardado argumentou que a boa notícia de que o mercado de trabalho continua robusto pode por outro lado indicar que os preços de serviços podem ser mais inerciais dessa vez. "Minha sensação que parte formal de emprego tem sido bom guia de inflação de serviços. Por isso ainda é preciso ter um pouco de cuidado", acrescentou.

<b>Estimativas do mercado financeiro</b>

A diretora do BC disse ainda que as estimativas longas do mercado para a inflação estão paradas em 3,5%, acima das metas de 3,00% dos próximos anos, o que significa que a desancoragem parcial das expectativas continua. "Alguns riscos e prêmios de risco observados pelos agentes impactam essas projeções", afirmou. "Estamos bastante comprometidos em agir de forma a trazer inflação para meta em prazo mais longo", completou.

Fernanda lembrou que a expectativa de inflação por parte dos consumidores e o mercado de trabalho formal mais forte podem impactar os reajustes salariais, mas por enquanto não se observa um quadro que preocupe o BC. "Os reajustes salariais reais têm mostrado na verdade uma recuperação de perdas ao longo do período de inflação mais alta no pós-pandemia. Taxas de reajuste real de 1% ou 2% são comuns em momento de inflação controlada. É uma boa notícia", acrescentou.

<b>Expectativas para o PIB e impacto no hiato do produto</b>

A diretora do Banco Central disse também que a surpresa positiva do crescimento de 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre terá impacto na mensuração do Copom sobre o hiato do produto. "Esperávamos um resultado um pouco pior, mas o importante é que continuamos esperando que haja uma abertura de hiato moderada ao longo dos próximos trimestres em linha com a expectativa de moderação do crescimento", afirmou.

Fernanda Guardado lembrou que o BC tem revisado para cima o hiato nos últimos trimestres, com um hiato ainda aberto, o que impactou as projeções do Copom para o IPCA. "A dificuldade de mensurar hiato é mais um risco no nosso cenário. Temos sido surpreendidos pela resiliência da atividade e temos revisado o hiato para cima.

Somos bem transparentes com nossas estimativas e vai haver uma nova revisão no Relatório Trimestral de Inflação de setembro", adiantou a diretora. "Trabalhamos ainda com cenário de moderação da atividade; temos confiança que hiato deve abrir levemente", concluiu.

<b>Terceiro trimestre</b>

Fernanda Guardado comentou que o crescimento do PIB no segundo trimestre do ano foi acima do esperado pelo BC e pelo mercado e também citou os cenários para o terceiro trimestre. "O segundo trimestre teve menos ajuda da agropecuária e mais ligado a serviços e ao consumo das famílias. Quando olhamos os resultados de mais alta frequência, viramos o terceiro trimestre com uma indústria de transformação andando de lado, assim como o comércio com alguma melhora, mas também meio de lado, e uma ajuda mais consistente de serviços", afirmou.

Para a diretora, há certa divergência entre os resultados setoriais no segundo e no terceiro trimestre, mas de modo geral é um crescimento que se desacelera. "Nossa expectativa é de que haja alguma moderação do crescimento ao longo do segundo semestre, em linha com a política monetária", acrescentou.

Ela destacou que os indicadores de confiança têm melhorado, especialmente do consumidor. "Esse é um indicador antecedente do que pode se ver no terceiro trimestre, com atividade ainda positiva e com alguma moderação na margem", completou.

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