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Estadão

Temor com inflação e China limitam alta da Bolsa

Após testar queda no início do pregão na faixa dos 111 mil pontos, o Ibovespa mudou o sinal, renovando máximas acima dos 112 mil pontos, testando os 113 mil pontos. No entanto, logo voltou a perder força com mudança de sinal para queda da maioria das bolsas em Nova York. Investidores ainda seguirem temerosos e com dúvidas internas e externas, especialmente em relação à inflação mundial. Além disso, o vencimento de opções sobre Ibovespa limita a valorização.

Conforme o economista-chefe do ModalMais, Álvaro Bandeira, seria importante o Ibovespa avançar rumo aos 115 mil pontos. "Depois de defender os 112 mil pontos na segunda-feira (baixa de 0,58%, aos 112.180,48 pontos), seria importante o Ibovespa buscar os 115 mil pontos para ganhar tração", afirma em análise matinal a clientes, na qual lembra também os 109.500 pontos do fim de novembro de 2020.

Porém, esse caminho parece não ser fácil já que pairam no ar incertezas sobre a inflação no mundo, em meio à escalada dos preços, diante da crise energética global, ao mesmo tempo em que há gargalos nas cadeias produtivas, que têm gerado temores em relação ao desaquecimento mundial.

No período da manhã, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos teve alta de 0,4% em setembro, ante previsão de 0,3%. Na comparação interanual, avançou 5,4% (projeção de analistas era de 5,3%). O núcleo do CPI subiu 0,2% em setembro ante agosto, como previsto.

"No geral, vieram em linha com o esperado, mas são números fortes, reforçando a leitura que o Fed apresentará o cronograma em novembro para a retirada do tapering", afirma a economista-chefe da Veedha, Camila Abdelmalack.

Apesar de dirigentes de bancos centrais mundiais seguirem reafirmando que a inflação elevada atualmente é transitória, Camila observa que o mercado e investidores têm dúvidas quanto a isso, dadas os riscos inflacionários por causa da crise energética mundial. "A preocupação com a inflação não é exclusividade só do Brasil. Tem uma questão global em relação ao encarecimento de energia. Por mais que vejamos um alivio nos IGPs, por causa de preços agrícolas, sabemos que isso pode não ser uma tendência", pondera.

Em meio a expectativas de normalização dos juros nos Estados Unidos, o diretor de Política Econômica do Banco Central (BC), Fabio Kanczuk, afirmou hoje que se o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) mudar sua política monetária, o BC terá de agir de "acordo". Ressaltou ainda que com risco fiscal no Brasil, não dá para evitar política monetária mais apertada.

As palavras indicam que o Banco Central manterá a disciplina de aumento dos juros, de olho na meta em 2022, mas a questão fiscal não é responsabilidade da autoridade monetária, descreve Mehanna Mehanna, sócio fundador da Phi Investimentos. Em meio a essa pressão inflacionária, os juros continuarão subindo, com consenso de alta de um ponto porcentual no Copom seguinte, cita. Porém, o diretor sugere que o ritmo poderá desacelerar ou ser acelerado, acrescenta.

A despeito das pressões inflacionárias, ações ligadas ao consumo avançam na Bolsa. Conforme Mehanna, ainda que o quadro de inflação preocupe, o IPCA de setembro (1,16%), divulgado na sexta-feira e menor do que o esperado (mediana de 1,25%) dá a esperança de controle inflacionário à frente. Ele lembra que esses papéis sofreram muito e que tentam alguma recuperação.

"O Ibovespa sobe apesar de não termos nada animador no noticiário e com uma agenda fraca. O mercado pode estar cansado de apanhar. Chega um momento em que não precisa de excelentes notícias para subir. Essa lateralização pode ser interpretada desta forma", diz Mehanna.

Quanto à safra de balanços nos EUA, o JPMorgan iniciou a temporada, ao apresentar aumento em seu lucro líquido em 24% na comparação anual do terceiro trimestre, superando expectativas. No caso da BlackRock, o lucro foi de US$ 1,681 bilhão no período (ou US$ 10,89 por ação), 23% maior do que o ganho de US$ 1,364 bilhão obtido no terceiro trimestre de 2020.

De forma geral, os dados de inflação e dos balanços reforçam que a economia americana está em expansão, corroborando a ideia de que o Fed irá iniciar logo a retirada dos estímulos, prevista para novembro. A dúvida é se o Fed será mais ou menos agressivo durante este processo. À tarde, será divulgada a ata do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), para a qual a MCM espera que reforce o cenário de início do tapering (retirada de estímulos) ainda neste ano.

Apesar do superávit comercial de US$ 66,76 bilhões na China em setembro, acima das expectativas de analistas, ações ligadas ao setor de commodities metálicas caem na Bolsa. Ontem (-3,55%) e hoje (-4,66%) o minério de ferro no porto chinês de Qingdao fechou em queda, em meio a novas medidas restritivas na China. O país ordenou a redução na produção de aço em algumas partes entre 15 de novembro e 15 de março. O petróleo recua e também limita a valorização do Ibovespa (subia 0,13%, aos 112.324,87 pontos, após máxima diária aos 113.097,55 pontos).

De acordo com Rachel de Sá, chefe de economia da Rico, essa restrição pesa sobre os preços do minério de ferro, que são a principal matéria prima do aço – impactando empresas produtores da commodity ao redor do mundo, como a brasileira Vale. As ações da empresa cediam 2,52%.

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