Por Alessandra Zanchetta
O lugar que deveria ser abrigo e afeto tornou-se, para milhares de mulheres brasileiras, o espaço mais perigoso. Dentro de casa, onde se espera segurança, elas enfrentam medo, silêncio e violência. A cada 45 segundos, uma mulher pede proteção judicial, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que registrou 171,036 medidas protetivas concedidas no primeiro trimestre de 2026. E, mesmo assim, entre janeiro e março de 2026, 399 mulheres foram assassinadas por feminicídio — o maior número desde 2015, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Dados do Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 77,9% das agressões não letais contra mulheres acontecem dentro de casa e 67,5% das mulheres assassinadas em 2024 eram negras. Isso confirma que gênero e raça se entrelaçam na violência letal no Brasil.
Quando a violência é contra crianças, os números também assustam: 18.892 casos de estupro de vulnerável nos quatro primeiros meses de 2026 — seis por hora. Esses números não são apenas estatísticas: são histórias que terminam em tragédia e a infância interrompida pelo abuso e pelo trauma.
A violência não termina no ato. Ela se instala no corpo e no cérebro. A neurociência mostra que viver sob ameaça constante hiperativa a amígdala cerebral, responsável pelo medo, mantendo o organismo em estado de alerta permanente. Esse estado crônico corrói o córtex pré-frontal, região que regula o raciocínio e o autocontrole, levando a ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.
Nas crianças, os efeitos são ainda mais devastadores. A exposição precoce à violência altera conexões neurais em fase crítica de desenvolvimento, aumentando o risco de dificuldades cognitivas, impulsividade e reprodução de padrões abusivos na vida adulta. A violência não apenas fere no presente: ela molda o futuro.
A percepção da sociedade
Pesquisa Datafolha de junho de 2026, encomendada pelo Movimento Mulher 360, revelou que 61% dos brasileiros consideram a violência contra a mulher o crime mais grave do país. Entre as mulheres, o índice sobe para 73%, e entre jovens de 16 a 24 anos é ainda maior.
Mas as microviolências seguem invisíveis. Apenas 54% reconhecem como violência impedir a parceira de sair sozinha, e 58% classificam como violência controlar amizades ou o salário da esposa. Esses atos sutis de dominação são o início de um ciclo que pode terminar em feminicídio.
Mas por que ainda falhamos em proteger?
Falhamos porque tratamos a violência como problema privado, ignoramos microviolências e continuamos a culpar as vítimas. Falhamos porque nossas instituições não oferecem confiança — apenas 17% das mulheres confiam muito na Justiça e 19% na polícia. Falhamos porque políticas públicas não se sustentam sem financiamento contínuo e sem mudança cultural. E falhamos, sobretudo, porque não compreendemos plenamente que a violência imprime marcas duradouras no corpo e no cérebro, comprometendo o futuro das mulheres e das crianças.
A violência contra a mulher é o maior problema de segurança pública do país. Mas sem romper o silêncio coletivo, sem fortalecer instituições e sem atacar as raízes culturais e psicológicas da violência, continuaremos falhando em proteger.
Violência doméstica não é desentendimento familiar, é crime. Denunciar pode salvar vidas. Ligue 180
Por Alessandra Zanchetta, jornalista especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness


