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Violência e saúde mental: o retrato alarmante do Atlas da Violência

Mais do que números de homicídios, o Atlas da Violência revela uma crise silenciosa de ansiedade, depressão e suicídio
Por Alessandra Zanchetta

O Atlas da Violência, publicação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), revela um dado inquietante: a violência no Brasil não se limita às estatísticas criminais, mas se manifesta como um grave problema de saúde mental coletiva. O medo crônico, a exposição a crimes e a violência doméstica têm efeitos devastadores sobre o bem-estar psicológico dos brasileiros.

Epidemia do medo

Segundo o estudo, 96% da população afirma sentir medo de sofrer violência. Esse temor constante altera rotinas, restringe a liberdade de circulação e gera ansiedade diária. Além disso, 57% dos brasileiros vivem em estado de alerta permanente, o que compromete a qualidade de vida e a saúde emocional.

O adoecimento mental não atinge todos da mesma forma. Mulheres, jovens negros e moradores de periferias são os mais afetados, apresentando índices elevados de depressão, estresse pós-traumático e ansiedade. A violência doméstica, comunitária e patrimonial intensifica esse quadro, criando um ciclo de vulnerabilidade e sofrimento.

O Atlas aponta que a violência é um dos principais gatilhos para autolesão e mortes autoprovocadas. O impacto psicológico vai além do ato físico: ele se prolonga na mente, corroendo a esperança e aumentando os índices de suicídio no país.

A violência gera um ciclo vicioso de adoecimento mental, e o adoecimento mental aumenta a vulnerabilidade à violência. Em uma dimensão coletiva, o medo generalizado compromete a vida comunitária e enfraquece laços sociais relevando uma questão estrutural, que não se trata apenas de segurança pública, mas de saúde coletiva e justiça social.

Os dados divulgados no Atlas da Violência evidenciam que enfrentar a criminalidade no Brasil exige mais do que ações policiais: é preciso olhar para os impactos profundos na saúde mental da população. Entre as medidas apontadas como caminhos possíveis estão as políticas públicas integradas, que unam segurança e atendimento psicológico gratuito, garantindo que o combate à violência caminhe junto com o cuidado emocional. Outro eixo fundamental é o fortalecimento comunitário, por meio da criação de redes locais de apoio, projetos culturais e esportivos que ofereçam alternativas de convivência e reduzam a exposição ao risco.

O estudo também destaca a necessidade de ações específicas para grupos vulneráveis, como a ampliação de casas de acolhimento para mulheres, programas de inclusão para jovens negros e acesso gratuito à saúde mental para cidadãos de baixa renda. Além disso, campanhas de conscientização são essenciais para promover uma cultura de paz e desnaturalizar a violência como parte da rotina.

O Brasil enfrenta não apenas uma crise de segurança, mas também uma epidemia silenciosa de sofrimento psíquico. Romper esse ciclo exige políticas intersetoriais, fortalecimento das comunidades e valorização da vida. Afinal, a violência não é apenas um problema de polícia — é um problema de saúde coletiva e cidadania.

Alessandra Zanchetta, jornalista e especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness