Delegado Helio Bressan*
Há alguns dias, conversando com um médico amigo, fui chamado a olhar com mais atenção para um problema grave e pouco debatido: a falta de acesso à radioterapia no Brasil.
Ele me relatou que muitos pacientes com câncer não conseguem iniciar o tratamento no tempo necessário porque faltam equipamentos, vagas, estrutura e serviços disponíveis em várias regiões do país. Aquilo me inquietou. Fui pesquisar. E o que encontrei é duro.
Segundo dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Radioterapia, cerca de 73 mil pacientes com câncer não têm acesso à radioterapia pelo SUS a cada ano. Entre 2008 e 2022, esse número teria alcançado 1,1 milhão de pessoas, podendo estar relacionado a mais de 110 mil mortes no período. É preciso ser tecnicamente correto: não se pode afirmar, caso a caso, que todos esses pacientes teriam sobrevivido se tivessem recebido radioterapia. Mas também não se pode ignorar o óbvio: quando o tratamento indicado não chega, a chance de cura diminui, o sofrimento aumenta e a morte se aproxima.
No câncer, tempo não é detalhe. Tempo é vida. Radioterapia não é luxo. É tratamento essencial em diversos tipos de câncer, seja com finalidade curativa, seja para controle da doença, redução da dor e preservação da dignidade do paciente. Quando falta máquina, falta estrutura ou falta planejamento, o que falta, na verdade, é Estado.
O INCA estima 704 mil novos casos de câncer por ano no Brasil no triênio 2023-2025. São milhares de famílias atravessando uma das fases mais difíceis da vida, muitas delas dependentes exclusivamente do sistema público.
E aqui está o ponto central: não estamos falando apenas de saúde pública. Estamos falando de gestão, prioridade e responsabilidade.
Quando uma máquina de radioterapia não existe onde deveria existir, alguém paga. Quando quebra e demora para ser substituída, alguém paga. Quando o paciente precisa viajar centenas de quilômetros, sem dinheiro, sem apoio e sem forças, alguém paga. E quem paga, quase sempre, é o mais pobre.
A falta de radioterapia não mata de uma vez. Mata pela espera, pela distância, pela burocracia e pela indiferença. Câncer não espera palanque, reunião ou promessa. O Estado precisa entregar máquina funcionando, equipe treinada e paciente atendido.
A pergunta que deve incomodar qualquer gestor público sério é esta: quantos brasileiros ainda precisarão morrer esperando por uma máquina que já deveria estar funcionando?


