Por Alessandra Zanchetta*
Você já parou para pensar por que pessoas aparentemente inteligentes, com acesso à informação, continuam defendendo ideias frágeis, absurdas ou até perigosas? Será que é pura ignorância? Má-fé? Ou existe algo mais profundo acontecendo dentro da mente humana?
A resposta não está apenas na política, mas na neurociência. O efeito Dunning-Kruger, descrito em 1999 pelos psicólogos David Dunning e Justin Kruger demonstra que a ignorância, muitas vezes, gera mais confiança do que o conhecimento. Quem sabe pouco tende a achar que sabe muito. Já quem realmente entende a complexidade costuma ser mais cauteloso. O paradoxo é cruel: quanto menos sabemos, mais confiantes nos tornamos. E essa confiança desproporcional abre espaço para narrativas simplistas, slogans sedutores e certezas absolutas.
Mas não para por aí. Quando fatos colidem com crenças, entra em cena a dissonância cognitiva, conceito de Leon Festinger, um psicólogo social americano que revolucionou a psicologia ao estudar como as pessoas processam crenças e interações sociais. O cérebro prefere distorcer a realidade a admitir o erro. Defender um político, uma ideologia ou até uma fake news vira, na prática, defender a própria autoestima. Não é sobre argumentos, é sobre identidade.
No Brasil, vimos isso acontecer em escala nacional: bolsonarismo e anti-lulismo dividiram famílias, destruíram amizades e transformaram grupos de WhatsApp em arenas de guerra. Nos Estados Unidos, milhões ainda juram que houve fraude eleitoral em 2020, mesmo sem provas. A lógica é a mesma: quando a política vira identidade, admitir que o “seu lado” errou é como admitir que você errou — e isso dói mais do que qualquer derrota eleitoral.
E as redes sociais? Elas não apenas amplificam o problema, mas o transformam em espetáculo. Algoritmos premiam quem grita mais alto, quem simplifica, quem promete certezas. Quem diz “isso é complexo” perde alcance. Quem grita “meu lado nunca erra” vira líder de torcida. O resultado é um ambiente digital em que a dúvida é punida e a arrogância é recompensada.
O preço disso não é apenas democrático, é pessoal. Relações se rompem, famílias se fragmentam, encontros antes regados a risadas viram campos de batalha. Em alguns casos, convicções frágeis transformadas em bandeiras de guerra chegam a extremos trágicos: vidas são ceifadas em nome de certezas que não resistiriam a uma análise crítica mínima.
E aqui surge a pergunta incômoda: será que não estamos todos, em algum nível, defendendo o indefensável? Será que não nos agarramos a certezas apenas para proteger nosso ego, nossa identidade, nossa necessidade de pertencimento?
Se quisermos sair desse ciclo, precisamos de algo radical: aprender a valorizar a dúvida. Duvidar não é fraqueza, é maturidade intelectual. Questionar não é traição, é sobrevivência democrática. A educação crítica e a alfabetização midiática são ferramentas essenciais, mas não bastam se não houver uma mudança cultural: precisamos reaprender a ouvir, a reconhecer a complexidade e a aceitar que não há respostas fáceis para problemas difíceis.
Porque, no fim das contas, não é má-fé que leva tanta gente a defender absurdos. É a ilusão de competência, a necessidade psicológica de proteger a própria identidade e o vício em certezas barulhentas. Enquanto isso continuar valendo mais do que reflexões cuidadosas, a democracia seguirá em risco — e nós seguiremos, cada vez mais, prisioneiros das nossas próprias convicções frágeis.

Por Alessandra Zanchetta, jornalista e especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness

