Alessandra Zanchetta*
Nas pausas do trabalho, entre um café e o retorno às tarefas, muitos se refugiam em jogos digitais, buscando uma descarga rápida de adrenalina. E dentro de quartos silenciosos, na solidão da madrugada, há quem passe horas perseguindo vitórias que parecem sempre ao alcance, mas que raramente chegam. Essa cena cotidiana mostra como o vício em jogos digitais se infiltrou na vida dos brasileiros, transformando momentos banais em oportunidades de risco.
O vício em jogos, ou ludopatia — que inclui tanto apostas quanto games — é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença. Suas consequências são severas e causam graves prejuízos financeiros, isolamento social, rupturas familiares e o desenvolvimento de quadros profundos de ansiedade e depressão. O comportamento compulsivo é alimentado pela necessidade de buscar recompensas imediatas e pela fuga de problemas reais.
No Brasil, o problema já se tornou questão de saúde pública. O Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou para até 100 mil atendimentos mensais a capacidade de teleatendimento voltado a pessoas que perderam o controle sobre os jogos, por meio do aplicativo Meu SUS Digital, que funciona de forma sigilosa e acolhedora como porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial. Mais de 1 milhão de brasileiros solicitaram a autoexclusão das plataformas de apostas, e cerca de 35% relataram perda de controle como principal motivo.
A neurociência ajuda a entender por que esse vício é tão difícil de controlar. O cérebro de uma pessoa viciada em jogos funciona de forma semelhante ao de quem tem dependência química: há alterações no sistema de recompensa, com liberação intensa de dopamina e reforço compulsivo. Cada vitória gera euforia e reforça o comportamento, e como os ganhos são imprevisíveis, o chamado reforço intermitente mantém o jogador acreditando que a próxima vitória está sempre próxima. Com o tempo, o comportamento deixa de ser impulsivo e se torna compulsivo, levando a perdas financeiras, isolamento social e agravamento de transtornos como ansiedade e depressão e, em casos extremos, até ao suicídio.
Esse quadro se soma a uma realidade já preocupante: segundo estudo publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, pelo menos 15 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos convivem com algum transtorno mental, sendo a ansiedade o mais prevalente em todas as faixas etárias. A combinação entre vulnerabilidade emocional e estímulos constantes das apostas digitais cria um terreno fértil para o desenvolvimento de quadros de dependência e sofrimento psicológico.
As consequências da ludopatia atravessam todas as dimensões da vida. No campo financeiro, o acúmulo de dívidas, a perda de patrimônio e o comprometimento da renda familiar tornam-se frequentes, já que muitos jogadores tentam recuperar perdas apostando valores cada vez maiores. Na saúde física e mental, os impactos são devastadores: insônia severa, má alimentação, irritabilidade, ansiedade, depressão e sentimentos intensos de culpa acompanham o cotidiano de quem não consegue se desligar dos jogos. No aspecto social e profissional, o vício provoca queda no rendimento escolar ou no trabalho, gera mentiras recorrentes para esconder o comportamento compulsivo e leva ao afastamento de amigos e familiares, aprofundando ainda mais o isolamento.
Diante desse cenário, o Brasil começou a reagir. Além da expansão dos atendimentos pelo SUS, novas regras de publicidade para casas de apostas passaram a valer, restringindo práticas abusivas e limitando a exposição de jovens e adultos a estímulos que podem agravar quadros de dependência.
O tratamento multidisciplinar é o caminho mais seguro para recuperar o controle da vida, incluindo terapia cognitivo-comportamental e, em alguns casos, acompanhamento psiquiátrico. Em São Paulo, há opções de apoio gratuito ou especializado: Jogadores Anônimos (JA), com grupos de apoio mútuo presenciais e online; o PROAMITI (USP), programa do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas voltado a dependentes de jogos e tecnologia; e a Rede CAPS (SUS), que oferece tratamento público e gratuito para dependência e saúde mental.
O vício em jogos não é apenas uma questão individual, mas um problema de saúde pública que exige respostas rápidas e integradas. O Brasil já deu passos importantes, mas o desafio é enorme: equilibrar a liberdade de entretenimento com a proteção da saúde mental de milhões de pessoas.

Por Alessandra Zanchetta, jornalista e especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness


