Estadão

Dólar recua 0,32% e fecha a R$ 4,7885 em dia positivo no exterior

O dólar à vista recuou na sessão desta quinta-feira, 2, e voltou a se situar abaixo da linha de R$ 4,80, em meio ao enfraquecimento da moeda norte-americana tanto em relação a divisas fortes quanto emergentes. Apesar da valorização das commodities, na esteira da reabertura da economia chinesa, e da alta firme do Ibovespa, o real apresentou um desempenho modesto em comparação com outras divisas emergentes.

Segundo analistas, o dólar poderia ter caído bem mais por aqui não fosse o recrudescimento das preocupações fiscais. São fortes os rumores de que o governo pode decretar estado de calamidade, abrindo a porta para mais gastos públicos em ano de eleição, incluindo subsídios para compensar a escalada dos preços dos combustíveis.

A alta de 1% PIB brasileiro no primeiro trimestre (na margem), embora ligeiramente abaixo do esperado (mediana de 1,2% pelo Projeções Broadcast), foi considerada positiva, mas não teve impacto relevante na formação da taxa de câmbio.

Depois de certa instabilidade pela manhã, o dólar operou em queda ao longo da tarde. Com oscilação de apenas certa de três centavos entre a mínima (R$ 4,7720) e a máxima (R$ 4,8093), a moeda fechou cotada a R$ 4,7885, em baixa de 0,32%. Na semana, a moeda ainda acumula valorização de 1,06%.

Fontes ouvidas pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) relatam uma disputa entre a ala política do governo e a equipe econômica, que estaria tentando barrar a edição de decreto de estado de calamidade, cuja justificativa seria o risco de desabastecimento do diesel. O ministro chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, disse que não vê necessidade de adotar essa estratégia agora, mas ressaltou que tudo "vai depender da situação do país" e que "a população está sofrendo".

"O risco fiscal entrou novamente no radar. Essa ideia de estado de calamidade já deixou de ser apenas um balão de ensaio e encontra eco nas principais lideranças políticas.", afirma o economista Homero Guizzo, da Terra Investimentos. "Era para o dólar ter caído muito mais hoje com esse ambiente positivo no exterior, mas a questão fiscal jogou água no chope".

Lá fora, depois da forte alta de quarta-feira, o índice DXY – que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes – voltou a ser negociado abaixo dos 102,000 pontos, sobretudo por conta da recuperação do euro. Investidores ajustaram posições na esteira da divulgação de dados mais fracos do mercado de trabalho nos EUA e da taxa anualizada de 37,2% da inflação ao produtor (PPI) na zona do euro em abril, aceleração em relação a março (36,9%), mas abaixo das expectativas (38,6%).

As atenções seguem voltadas ao ritmo de ajuste das política monetárias pelo Banco Central Europeu (BCE) e, em especial, pelo Federal Reserve. Na véspera da divulgação do relatório de emprego (payroll) dos EUA de maio, o relatório ADP mostrou que o setor privado americano criou 128 mil vagas no mês passado, bem abaixo da previsão, de 299 mil. A dinâmica do mercado de trabalho é um dos indicadores mais relevantes para a condução da política monetária americana.

A presidente do Fed de Cleveland, Loretta Mester, alertou que, se a inflação americana não mostrar moderação até setembro, pode ser necessário aumentar o ritmo de alta dos juros. Mester ponderou, contudo, que leituras mensais trazem evidência de que a inflação está cedendo. Por ora, está na conta do mercado elevações da taxa básica – hoje na faixa entre 0,75% e 1% – em 50 pontos-base nas próximas duas reuniões do Fed. Pela manhã, a vice-presidente do Fed, Lael Brainard, disse que considera "razoável" a precificação de mais duas altas de 50 pontos-base (em junho e julho), mas alertou que é "muito difícil" encontrar argumentos para uma pausa do processo de alta em setembro dadas as pressões inflacionárias.

A alta persistente do petróleo, em meio ao embargo da União Europeia ao óleo russo em razão da guerra na Ucrânia, preocupa os investidores. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) decidiu elevar a produção em 648 mil barris por dia em julho, medida considerada insuficiente pelo mercado. O barril tipo Brent para agosto, referência para a Petrobras, fechou nesta quinta em alta de 1,40%, a US$ 116,87, impulsionado também pela redução maior que a esperada do estoque dos EUA na semana passada.

O Santander Brasil antevê um "aperto monetário nos EUA mais intenso do que o esperado", o que, aliado à ansiedade pré-eleitoral", joga contra a moeda brasileira. O Banco elevou sua projeção para a taxa de câmbio no fim deste ano de R$ 5 para R$ 5,15. Para 2023, a expectativa passou de R$ 4,80 para R$ 5,00.

Guizzo, da Terra Investimentos, lembra que um dos principais propulsores do real nos últimos meses foi a ampliação do diferencial entre juros interno e externo, dado que o Banco Central brasileiro saiu na frente no processo de aperto monetário. "Agora, o BC já fala em encerrar o ciclo, enquanto no resto do mundo os juros vão subir mais, porque a inflação está muito elevada", afirma.

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