Estadão

Dólar sobe 1% hoje com aversão ao risco por guerra, mas recua 1,5% na semana

Após dois dias de queda expressiva, em que acumulou desvalorização de 2,47% e flertou com o rompimento do piso de R$ 5,00, o dólar subiu hoje no mercado doméstico de câmbio em sintonia com a valorização da moeda americana no exterior. O recrudescimento da guerra no leste europeu, na esteira do ataque russo a uma usina nuclear na Ucrânia (a maior da Europa), desencadeou um movimento global de aversão ao risco. Investidores venderam ações e correram para se abrigar no dólar e nos títulos do Tesouro americano na véspera do fim de semana.

No fim da manhã, momento de maior estresse, a divida registrou a máxima do pregão, cotada a R$ 5,10 (+1,43%). O dólar desacelerou o ritmo de alta ao longo da tarde e fechou a R$ 5,0783, em alta de 1,00%. Apesar disso, encerra a semana pós-carnaval, que contou com apenas três pregões, em queda de 1,50% – o que leva a desvalorização acumulada neste ano a 8,92%.

Lá fora, o DXY – que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes – trabalhou durante o dia em forte alta e, na máxima, chegou a se aproximar dos 99,000 pontos. O dólar subiu em bloco em relação a divisas emergentes e de países exportadores de commodities, com ganhos superiores a 2% frente a moedas do leste europeu, como o florim húngaro e o zloty polonês. O rublo, como era de se esperar, foi quem mais sofreu, com perdas de dois dígitos.

"O driver hoje foi a questão geopolítica. O mercado estava se segurando relativamente bem, mas essa questão ligada à energia nuclear é algo mais perigoso. Temos fluxo para o Brasil, mas o dólar pode ter uma correção e subir mais com essa piora do risco", afirma o economista Bruno Mori, planejador financeiro pela Planejar.

A despeito da alta do dólar hoje, os fatores que dão sustentação à perspectiva favorável ao real no curto prazo – em especial a forte alta das commodities (petróleo e grãos, por exemplo) e o diferencial de juros interno e externo elevado – seguem intactos. Contudo, episódios mais agudos de aversão ao risco, como o observado hoje, podem ensejar altas da moeda americana por aqui, ao provocar interrupção temporária de fluxo de recursos, abrindo espaço para realização pontual de lucros e ajuste de posições.

O head da mesa de câmbio da SVN Investimentos, Renan Mazzo, vê o avanço do dólar hoje como moderado em comparação a perdas apresentadas pela moeda americana nos dois dias anteriores. "Temos fluxo forte ainda de entrada para a Bolsa e houve uma explosão dos preços das commodities, o que favorece as exportações. Além disso, como o Brasil se antecipou no aperto monetário, temos um diferencial de juros bem mais atraente que outros emergentes", diz Mazzo.

Na última quarta-feira, quando o mercado brasileiro reabriu após o feriado de Carnaval, houve entrada de R$ 4,941 bilhões na B3. No acumulado de 2022, o aporte de capital externo na Bolsa já soma R$ 67,561 bilhões. Dados divulgados pelo Banco Central nesta semana mostram que o fluxo cambial total foi positivo em US$ 6,340 bilhões em fevereiro, com entrada líquida de US$ 3,347 bilhões pelo canal financeiro.

Com as atenções voltadas aos desdobramentos do conflito na Ucrânia, o resultado acima do esperado do relatório de emprego (payroll) dos Estados Unidos em fevereiro não teve poder de mexer com as expectativas para o rumo dos juros americanos. É predominante a aposta de que o Federal Reserve eleve a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual no próximo dia 16 – como já externado pelo presidente do BC americano, Jerome Powell, em audiências públicas no Congresso americano nesta semana. Há dúvidas, contudo, se o Fed poderá manter uma postura gradualista caso a inflação avance ainda mais em razão dos choques de oferta provocados pela guerra na Ucrânia.

Houve criação de 678 mil empregos nos EUA em fevereiro, frente à previsão de 440 mil vagas. A taxa de desemprego recuou de 4% em janeiro para 3,8% no mês passado, praticamente em linha com as expectativas (3,9%). Já o salário médio por hora decepcionou, com alta marginal de 0,03%, quando se esperava +0,05%.

"O BC americano veio com um discurso mais ameno nesta semana e não vai subir os juros com tanta força em março, mesmo com a forte criação de emprego e queda da taxa de desemprego. Mas parece inevitável que esse movimento de alta dos juros ganhe força ao longo do ano com os preços das commodities pressionados", diz o economista Bruno Mori.

Por aqui, as taxas de juros subiram com força, na esteira da preocupação com as pressões inflacionárias geradas pela disparada das commodities, e já embutem a perspectiva de uma taxa Selic acima de 13% no fim do atual ciclo de aperto monetário – o que, em tese, aumenta ainda mais a atratividade da renda fixa brasileira. O IBGE divulgou pela manhã que o PIB subiu 0,5% no quarto trimestre na margem e fechou 2021 com alta de 4,6%, levemente acima da mediana de Projeções Broadcast (4,5%). Apesar de trazer algum impulso para este ano, esse resultado não desfaz a expectativa de atividade muito fraca em 2022.