Estadão

Em O Colibri, avanços, recuos e a vida incerta de um resistente

Em sua infância, Marco era chamado de Colibri porque era pequenininho a ponto de seus pais o mandarem a um tratamento hormonal para crescer. Adulto, Marco voltou a ser chamado de Colibri por uma namorada, aliás seu grande amor de sempre, porque, como o popular beija-flor, ele era hábil em voar parado no ar. Uma maneira gentil (ou talvez nem tanto) de dizer que era resistente porém conservador. Vencia o vento, sem sair do lugar.

<i>O Colibri</i> é o novo filme da cineasta italiana Francesca Archibugi e quem interpreta Marco Carrera quando adulto é Pierfrancesco Favino, talvez o ator mais badalado da Península na provável companhia de Toni Servillo. Em todo caso, Favino é ótimo e, em O Colibri, desfruta das excelentes companhias de Bérénice Bejo, Laura Morante e Nanni Moretti, para ficar nos nomes mais conhecidos do elenco.

A ideia de Archibugi é expor a trajetória desse personagem em várias fases da vida – criança, jovem, adulto e idoso. Um arco temporal grande e que se complica ainda mais quando levamos em conta o tamanho do elenco encarregado de interpretar a família de Marco, seus pais e irmãos, amigos, amores, um psicanalista intempestivo, companheiros de jogatina, etc.

<b>FILME-RIO</b>

Temos então aí um filme-rio, estendido por várias décadas, ao longo de mais de duas horas de duração. Para complicar de vez, a diretora optou por avanços e recuos no tempo, movimentos por vezes abruptos e que tendem a abalar a já frágil estrutura narrativa. Esta se equilibra com dificuldade pelo grande número de personagens, alguns deles insuficientemente desenvolvidos. Obra com vocação coral, acaba tendo em Marco adulto um precário centro de gravidade. Seu intérprete, Favino, faz o que pode para manter em pé o edifício narrativo. Mas nem o mais dotado dos atores é capaz de, sozinho, lograr essa proeza.

Assim, <i>O Colibri </i>arrasta-se como pode, sustentado, é verdade, por alguns momentos mais luminosos, interessantes e, por que não dizer, emocionantes.

Tais como as cenas de um casamento complicado com a insinuante porém desequilibrada Marina (Kasia Smutniak), com quem ele tem uma filha de destino trágico, Adèle. Se a existência de Marco, sempre apaixonado pela francesa Luisa Lattes (Bérénice Bejo), já é difícil, ela se torna ainda mais complicada com a interferência do nada ortodoxo psicanalista interpretado por Nanni Moretti. Marco vem de uma infância sofrida junto à mãe instável (Laura Morante), torna-se médico e vive a fase adulta cheio de problemas pessoais. Como deverá encarar a velhice?

Enfim, é uma travessia e tanto, baseada no romance homônimo de Sandro Veronesi (coautor do roteiro), um best-seller na Itália.

Francesca Archibugi é uma diretora experiente. Filmes anteriores, como <i>O Jogo de Mignon</i>, <i>A Grande Melancia e Campo das Ilusões</i>, mostram uma cineasta simples, sem grandes rebuscamentos formais, porém eficaz na narrativa. Em O Colibri, lança-se a uma aventura equilibrista, que se faz em prejuízo da obra e, por consequência, do espectador.

Pode ser fruto do seu próprio amadurecimento como pessoa e como artista, em confronto com a complexidade da vida. De toda forma, se existe sempre um respiro de esperança, o tom predominante de O Colibri parece bastante sombrio.

As informações são do jornal <b>O Estado de S. Paulo.</b>

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