Opinião

EMERSON SHEIK, UM TAPA NA HIPOCRISIA

Coluna do jornalista Ernesto Zanon sobre o polêmico "selinho" dado pelo jogador Emerson Sheik em um amigo

Um simples selinho – beijo descompromissado na boca – dado pelo atacante corintiano Emerson Sheik serviu para levantar uma polêmica interessante em tempos que tanto se fala em homofobia. E também ajudou a aumentar os ataques ou provocações entre as torcidas paulistas. Na verdade, Emerson é um daqueles jogadores que, para que torce para o Corinthians, não precisa mais provar nada para ninguém. Fundamental na conquista inédita da Libertadores em 2012, tem crédito de sobra.

Mesmo assim, foi alvo de ataques homofóbicos de uma meia dúzia de desocupados que se intitulam torcedores do Timão, que estenderam faixas e cartazes no centro de treinamento do Corinthians condenando a atitude de Emerson que, além de dar o selinho, postou a foto em uma rede social. Porém, muito mais que uma brincadeira, o ato do Sheik teve um pano de fundo ainda maior. Demonstrou que a vida pode ser levada menos a sério em determinados momentos. Revelou um gesto de carinho entre dois amigos.

Mas para quem não suporta atos afetuosos, soou como uma provocação. Independente das preferências sexuais do jogador, que se declara hetero, trouxe a público um lado que poucos conseguem enxergar em muitos ídolos. As pessoas têm o direito de ser o que querem. De distribuir, da forma que mais lhe agradar, carinho a um amigo ou uma amiga.

Muitos torcem o nariz quando veem à sua volta amigos se cumprimentando com um beijo no rosto quando são homens. Mas ninguém vê mal algum quando duas mulheres trocam beijinhos. É a tal da hipocrisia que reina em nossa sociedade machista e – até por isso – injusta. No futebol mesmo, não é raro em partidas disputadas na Europa, jogadores trocarem beijos na boca nas comemorações de seus gols. Só que isso no Brasil é um ato homossexual.

Ao dar um selinho com a boca, Emerson deu um tapa bem grande na hipocrisia. Ao deixar claro ser de carne e osso, avisou a quem goste ou não que faz de sua vida o que quiser. Que – apesar da imagem pública e responsabilidade que carrega como tal – é feito de carne, osso e sentimentos. Que adianta recriminar uma atitude como essa mas comungar com corruptos, por exemplo? Errado é o Emerson que não está cometendo qualquer crime ou quem se faz em cima da opressão a seus iguais?

Talvez se as pessoas se preocupassem mais com seus próprios atos, sem se importar tanto com os outros, haveria a possibilidade de todos serem mais felizes. Se você não gosta de dar um selinho em seu amigo, simples. Não dê. Mas não é preciso se incomodar tanto com quem faz suas opções. Isso vale para um simples beijo até para as preferências sexuais.

 

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