O Brasil, em sua incansável vocação para o binarismo, transformou um dos debates mais complexos da nossa estrutura socioeconômica em uma guerra de trincheiras digitais. A discussão sobre o fim da escala 6×1, que deveria ser o epicentro de uma análise profunda sobre produtividade, saúde mental e dificuldade das empresas em manter custos, acabou reduzida à dinâmica das redes sociais.
Como já abordei em colunas anteriores, as redes sociais surgiram como a esperança para a democratização da voz, mas entregaram o refinamento do extremismo. O tema da escala 6×1 é o laboratório perfeito para observar esse fenômeno. Qualquer tentativa de ponderação desaparece no meio do barulho. Quem fala dos impactos econômicos é acusado de desumanidade. Quem defende a redução da jornada vira inimigo do empreendedor.
O algoritmo não aceita o “meio-termo”. Ele não tem paciência para períodos de transição, para estudos de impacto setorial ou para a complexidade da automação que bate à nossa porta. Ele exige o herói e o vilão. Ele quer o corte rápido, a frase de efeito que gera o “like” de confirmação na bolha. E a política institucional, infelizmente, capitulou a essa dinâmica.
O que vemos em Brasília nesta semana não é a busca por uma solução equilibrada, mas o medo do cancelamento ou o desejo frenético pelo viral. Parlamentares e governo operam sob o regime de “urgência algorítmica”. O termômetro não é mais a viabilidade técnica, mas o “trending topic”. Hoje, muitos parlamentares parecem mais preocupados com o recorte que vai circular nas redes do que com a viabilidade prática da proposta.
Esses dias, conversei com um pequeno comerciante que me disse não saber como absorver novos custos sem aumentar preços. No mesmo dia, ouvi de uma atendente que já não consegue mais conciliar a rotina de seis dias seguidos de trabalho. A grande ironia é que, enquanto nos digladiamos na rede social, a realidade do trabalhador e do empreendedor continua a mesma. A precarização, o custo Brasil e a saúde mental não se resolvem com hashtags.
Se desaprendemos a conviver e a discordar com base em fatos, como pretendemos construir o futuro do trabalho?
A escala 6×1 é um debate necessário, urgente e legítimo. Mas, enquanto permitirmos que o tribunal do algoritmo dite o tom da conversa, continuaremos a produzir muito barulho e pouca solução. O debate morre onde o meme vence.


