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Exterior, balanço do Bradesco e debate sobre meta impedem recuperação do Ibovespa

A queda das bolsas internacionais, em meio a incertezas sobre juros principalmente nos EUA e na Europa, e alguns resultados fracos de empresas brasileiras no quarto trimestre impedem uma recuperação do Ibovespa. Some-se a isto as preocupações com os efeitos de uma possível mudança na meta de inflação, em meio aos ataques do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e do PT ao Banco Central (BC).

Após variar entre a mínima diária aos 107.689,19 pontos (-0,30%) e máxima aos 108.646,51 pontos, em alta de 0,59%, o Ibovespa perdia fôlego perto de 11h30. Além da forte queda nas ações do Bradesco após divulgar ontem à noite recuo em seu lucro do quarto trimestre, alguns papéis ligados ao minério, que subiu hoje na China, passavam a ceder, caso da Vale.

No Brasil, destaca Gustavo Neves, especialista em renda variável da Blue3, os sinais divergentes do governo e a falta de apresentação de projetos que de fato possam ser viabilizados elevam as incertezas.

"Ainda temos a questão da Americanas que preocupa e contamina, temos um quadro de juros alto, debate sobre meta. Acaba desancorando as expectativas", diz Neves. "Quando não se cria alternativa, gera incerteza. Pode até ocorrer mudança na meta, mas o problema é a comunicação", reforça o especialista da Blue3.

Como corrobora, Ricardo Carneiro, especialista em commodities e renda variável na WIT Invest, o cenário prospectivo de inflação ainda não é bom. "O mercado colocou prêmio de risco maior aqui por conta da política fiscal incerta", diz.

Sobre o Bradesco, fechou o quarto trimestre de 2022 com lucro líquido recorrente de R$ 1,595 bilhão, uma queda de 75,9% em relação ao mesmo período de 2021, e de 69,5% em relação ao trimestre imediatamente anterior. O resultado do banco foi fortemente afetado por um cliente de atacado, que não teve o nome citado, e que teve todo o crédito provisionado – pelo movimento, é possível inferir que trata-se da Americanas.

Ao comentar os números, o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, o retorno do banco se recuperará de forma gradual até o final deste ano, com melhorias tanto no custo de crédito quanto nas margens.

No exterior, o petróleo avança em torno de 1%, após subir mais de 2%, em meio ao otimismo com a recuperação da chinesa e após a Rússia cortar a produção em março. O minério de ferro negociado na bolsa de Dalian teve valorização de 0,76%, a US$ 127,04 a tonelada.

"Estamos moderadamente otimistas com a recuperação da China. A demanda chinesa não está tão forte como se imaginava, e isso pode não se traduzir na economia de forma tão forte como o esperado", avalia Carneiro, da WIT Invest.

Nem mesmo anima na B3 o crescimento do volume de serviços, de 3,1% em dezembro, acima do esperado.

Apesar da ausência de Lula no Brasil, que está em visita aos EUA, os últimos ruídos políticos em torno do Banco Central devem continuar gerando cautela nos mercados. E mesmo que o ministro da Secretaria das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, tenha dito que desconhece qualquer discussão no governo sobre mudança de meta de inflação, o Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) apurou que a equipe econômica já tinha uma sinalização positiva do presidente do BC, Roberto Campos Neto, para um ajuste no alvo da política monetária dos próximos anos.

O temor no mercado é de uma eventual modificação na meta desancore ainda mais as expectativas de inflação, eleve as projeções de juros e aumente as dúvidas fiscais. Na opinião do economista Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria, uma solução como essa seria ruim pois opta-se por uma decisão técnica sem um debate técnico.

Às 11h38, o Ibovespa zerava a alta aos 108.003,05 pontos. Petrobras subia em torno de 2%, mas Vale caia 0,69%. Bradesco perdia 7,54% (PN) e -6,00% (ON). Ontem, o índice fechou em baixa de 1,77%, aos 108.008,05 pontos.

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