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Galeria a céu aberto homenageia Maradona no estádio do Argentinos Juniors

Ele está em todos os cantos. Nas paredes do Argentinos Juniors, em Buenos Aires, é possível ler a história do maior profeta do futebol local e se deparar com sua imagem. Isso porque, cerca de meio ano após a morte de Maradona, foi inaugurada na cidade uma série de pinturas do muralista Victor Marley com um único objetivo: o de não deixar o mito desaparecer ou simplesmente cair no esquecimento, o que para muitos portenhos seria impossível. O craque é um deus na Argentina, vivo ou morto.

Segundo contou ao <i>La Nación</i> o vice-presidente do Argentinos Juniors, Adrián Peréz, a decisão de criar uma sequência de pinturas de Diego surgiu com a intenção de tornar o caminho de peregrinação dos fanáticos de Maradona um lugar "mais representativo". O interesse pelos seus passos sempre houve, mas, após sua morte, em 25 de novembro do ano passado, isso cresceu assustadoramente.

E foi assim que se encomendaram os primeiros retratos pintados por Marley, artista que se autodenomina também um "maradoniano". Ele já vinha aerografando o camisa 10 argentino em vários bairros de Buenos Aires, em projeto no qual se propôs a pintar dez murais do craque. Seu projeto só fez crescer com tamanho interesse. Poucos vão a Buenos Aires e não se envolvem com Maradona. Talvez não haja lugar na cidade que Diego não esteja representado. Os murais com suas imagens estão por todos os lados.

A ideia surgiu ainda antes do falecimento de Diego. "Pensava fazer 10 murais do Maradona como um presente para que ele visse o carinho que lhe temos", conta Marley, justificando a decisão de colorir Buenos Aires com imagens de Maradona.

Quando estava por começar o terceiro mural da série que chamou de "Dez do 10", veio a notícia de sua morte. Logo depois de fazer um mural no bairro do Argentinos, foi convidado para dar forma aos primeiros retratos da rua Juan Agustín García. A ideia era que o rosto de Diego ocupasse todo o contorno do clube onde ele surgiu no estádio que hoje leva seu nome.

"Ao ter saído das bases, das divisões inferiores, sentimos que somos um pouco mais donos do que o resto", confessou o dirigente sobre Maradona. A verdade é que Diego nunca pertenceu a ninguém. É possível perceber essa tendência nos momentos escolhidos para serem reproduzidos. Há Diego no Argentinos, em passagem pelo Barcelona, Napoli e pela seleção, mas nada de suas trajetórias pelo Boca Juniors ou pelo Newell s Old Boys de Rosário.

Sobre a oportunidade, Marley agradeceu a oportunidade de eternizar Maradona por meio de seu trabalho, eternizando também seus traços. "Obrigada a @aaajoficial por confiar na minha arte. Espero que se note que o faço com todo meu coração", postou o artista nas redes sociais.

DETALHES DAS OBRAS – A rua se chama Juan Agustín García, mas as placas de identificação foram alteradas há um ano, após a morte do craque, e o nome que se lê agora é o de Diego Maradona. Os enormes retratos de Maradona feitos em aerógrafo ocupam dois lados do estádio, nos quais o artista trabalha a técnica do hiper-realismo e sugere, em tom de desafio, estar trabalhando para produzir o maior mural do mundo. E assim Maradona cresce e se espalha em Buenos Aires, sob sol e chuva, calor e frio. Ele resistirá ao tempo.

"A dirigência do clube ia me pedindo fotos e eu ia lhes aconselhando segundo a imagem que melhor se via, dizendo também para não centrar-se nas imagens mais conhecidas dele, senão em outras que ainda não tivessem sido transformadas em murais", conta Marley sobre a seleção dos momentos a serem pintados.

Há vários Diegos nas pinturas de Marley, mas todos dentro de um só. Diego inspira Maradona em cenas inéditas e algumas mais conhecidas, como o gol de mão, Las Manos de Deus", na Copa do Mundo contra a Inglaterra, em 1986. Mas há também um garoto cabeludo em sua estreia na base dos Cebollitas ou ainda com a camisa da seleção. O abraço em Caniggia após um gol está diretamente ligado ao Brasil, pois aquele gol eliminou a seleção brasileira da Copa do Mundo da Itália, em 1990. Ao abraço, seguiu-se um beijo.

Os Diegos do grafiteiro não param por aí, segundo ele adiantou ao <b>Estadão</b>.

Ainda faltam 100 metros para serem cobertos de tinta no trabalho no Argentinos, e logo o artista irá começar a pintar um novo mural em Bajo Flores, perto do estádio do San Lorenzo. Questionado sobre o que o aproxima de Maradona, o artista não titubeia e responde rapidamente: "a personalidade". "Nós, os argentinos, somos todos um pouco parecidos ao Diego. Bem argentino era o gordo , como lhe chama carinhosamente. Se já me emocionava, quando ele estava vivo, pintar um mural com sua imagem, imagine agora!, depois de morto", confessa Marley.

A CAPELA DE D10S E NOVAS HOMENAGENS – No dia 10 de dezembro de 2020, pouco depois da morte de Maradona, foi inaugurado um santuário nas imediações do clube Argentinos, onde os fãs iam depositar oferendas ao ídolo. Hoje, o local se transformou numa capela, com direito a banco de igreja e tudo, onde esses objetos estão reunidos em volta de um altar, onde também é possível fazer uma prece ao jogador mais querido do país. Virou lugar de peregrinação, de argentinos e não argentinos.

Para o aniversário da morte de Diego, estão sendo preparadas várias homenagens, uma delas é a inauguração de um mosaico com a imagem do craque imortalizada com o uniforme do Argentinos. A iniciativa foi de uma loja de cerâmicas especializada na técnica que é vizinha do clube, no bairro de La Paternal.

"Estamos fazendo um mosaico para homenagear Maradona. A ideia surgiu porque temos uma loja de azulejos aqui no bairro e também somos torcedores do Argentinos Juniors, então propusemos ao clube fazer a doação. Há 12 pessoas envolvidas nesse projeto, todos doando sua força de trabalho. Vamos inaugurá-lo no dia 25", conta Maria Angélica Aya, idealizadora da iniciativa. Ela, que é colombiana, explica que o camisa 10 é algo que faz parte da cultura argentina. Maradona é uma figura conhecida mundialmente, então vivê-lo, ter vivido ano passado a morte dele e ver o que ele significa para o povo me parece algo muito emocionante", diz.