Estadão

Julian Assange pode ser extraditado para os EUA, decide Justiça britânica

Julian Assange, fundador do site WikiLeaks, poderá ser extraditado para os Estados Unidos, decidiu nesta sexta-feira, 10, a Justiça do Reino Unido, ao aprovar um pedido de recurso do governo americano. O australiano de 50 anos enfrenta nos Estados Unidos ao menos 17 acusações criminais, incluindo uma violação da lei de espionagem, e conspiração para invadir computadores do governo.

As revelações do WikiLeaks expuseram crimes de guerra dos EUA no Iraque e no Afeganistão, detenções extrajudiciais na prisão de Guantánamo, em Cuba, e telegramas de diplomatas revelando abusos de direitos humanos em diferentes partes do mundo. A decisão representa um golpe para os esforços de Assange de evitar sua extradição para os EUA para enfrentar acusações de espionagem, embora as opções de recurso permaneçam abertas para sua equipe jurídica.

"O tribunal permite o recurso", disse o juiz Timothy Holroyde, revertendo uma decisão de janeiro deste ano que impedia a extradição. As autoridades dos Estados Unidos acusam o australiano de divulgação de uma vasta coleção de registros militares confidenciais americanos e informações diplomáticas que, segundo eles, colocaram vidas em perigo.

O advogado que representa o governo americano, James Lewis, insistiu nas garantias dadas por Washington de que Julian Assange não será submetido a medidas especiais nem ficará detido no temido centro penitenciário de altíssima segurança ADX Florence, no Colorado, conhecido como "Alcatraz das Montanhas Rochosas".

O advogado James Lewis afirmou que a Justiça americana vai garantir que Assange receba os cuidados clínicos e psicológicos necessários e que poderá solicitar cumprir sua pena na Austrália, seu país de origem.

Assange está sob custódia no Reino Unido desde abril de 2019. Antes, ele tinha ficado sete anos na embaixada do Equador na capital britânica para evitar uma extradição para a Suécia, pedida em 2010, em um caso de agressão sexual que viria a ser arquivado em 2017. Ele está há dois anos e meio na penitenciária de segurança máxima de Belmarsh.

O australiano, considerado por seus simpatizantes uma vítima de ataques contra a liberdade de expressão, havia conquistado um resultado positivo em janeiro. Na ocasião, a Justiça rejeitou o pedido de extradição de Washington, alegando que existia a risco de Assange cometer suicídio. Nos Estados Unidos, ele pode enfrentar uma pena de 175 anos de prisão.

Em seu recurso, Washington questiona a confiabilidade de um especialista que testemunhou a favor de Assange sobre a fragilidade de sua saúde mental atual.

O psiquiatra Michael Kopelman reconheceu que enganou a Justiça ao "ocultar" o fato de que seu cliente se tornou pai durante seu confinamento na embaixada do Equador em Londres.

O australiano, que conta com o apoio de várias organizações de defesa da liberdade de imprensa, é procurado pelos Estados Unidos por espionagem, após a publicação de cerca de 700.000 documentos militares e diplomáticos confidenciais.

Ele foi detido pela polícia britânica em abril de 2019, depois de passar sete anos na embaixada do Equador em Londres, onde se refugiou quando estava em liberdade sob fiança. Ele temia a extradição para os Estados Unidos, ou para a Suécia, cuja Justiça o denunciou por estupro. Desde então, estas acusações foram retiradas.

<b>WikiLeaks e as acusações contra Assange</b>

O WikiLeaks ficou famoso em 2009 quando publicou centenas de milhares de mensagens enviadas por pagers em 11 de setembro de 2001, o dia do atentado nos Estados Unidos contra as Torres Gêmeas e o Pentágono. A ONG, fundada em 2006 por Julian Assange, permite a publicação online de documentos secretos sem identificar quem os vazou.

Pouco a pouco, suas revelações se tornaram mais controvertidas, como quando publicou um vídeo em que soldados americanos aparecem cometendo abusos no Iraque ou quando divulgou milhares de documentos militares sobre o Afeganistão.

Em novembro de 2010, o WikiLeaks publicou, com a ajuda de cinco jornais internacionais (<i>The New York Times, The Guardian, Der Spiegel, Le Monde e El País</i>), mais de 250 mil documentos secretos que revelavam segredos da diplomacia americana. Este episódio, depois batizado como "cablegate", transformou o australiano em inimigo número 1 dos EUA.

Ao todo, o WikiLeaks diz ter publicado "mais de 10 milhões de documentos" sobre vários assuntos, incluindo o mundo das finanças, do entretenimento e da política. (Com agências internacionais).