Estadão

Juros: Taxas recuam em reação à aprovação do novo arcabouço fiscal na Câmara

Os juros futuros fecharam a quarta-feira, 24, em queda, em reação à aprovação do texto-base do novo arcabouço fiscal na Câmara, mesmo bem antecipada ontem pelo mercado. A margem de votos a favor (372) expressiva e ajustes que tornaram o projeto mais conservador permitiram a continuidade da devolução de prêmios na curva, enquanto o mercado também monitorava o exterior e a novela do teto da dívida dos Estados Unidos. Já a ata da reunião do Federal Reserve não chegou a influenciar a curva local.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 fechou em 13,26%, de 13,29% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2025 caiu de 11,68% para 11,63%. O DI para janeiro de 2027 fechou com taxa de 11,14%, de 11,19% ontem, e a do DI para janeiro de 2029 recuou de 11,50% para 11,42%.

A votação expressiva na Câmara, de 372 votos ante 257 necessários, deixou no mercado um sentimento positivo para as próximas matérias, embora se saiba que a reforma tributária, a próxima da fila, deverá trazer muito mais dificuldade para o governo.

De todo modo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, considerou o placar elástico um bom prognóstico para Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que altera o sistema tributário e que exige 308 votos favoráveis, portanto, menos do que o alcançado no projeto do marco fiscal. "Nos dá muita confiança de que a reforma tributária é a próxima tarefa a cumprir. O presidente da Câmara Arthur Lira deixou muito claro que pretende votar a tributária na Câmara no primeiro semestre, portanto antes do recesso", disse.

Um dos principais ajustes no texto do arcabouço que agradaram ao mercado foi o de condicionar o cálculo das despesas para 2024 até o limite de 2,5% com base em 70% do aumento da arrecadação, que estava presente no texto original. O parecer do relator Claudio Cajado (PP-BA) permitia o crescimento até 2,5% sem considerar a arrecadação. Está prevista para hoje a votação de destaques ao texto e, concluída esta etapa, segue para apreciação no Senado.

O comportamento da curva reflete ainda a ideia de que, na medida em que as etapas da tramitação do texto no Congresso vão sendo cumpridas, fica mais viável o início do ciclo de queda da Selic, embora se saiba que não há conexão automática entre as duas coisas. Para Ariane Benedito, economista da Esh capital, a aprovação do marco pode ter influência sobre a política monetária via canal das expectativas, mas é algo também que levará algum tempo. "Caso se concretize a ancoragem, o BC pode dar algum alívio e sinalizar os cortes", afirmou.

Para o economista André Perfeito, com um texto mais austero do ponto de vista fiscal, é provável que o real se aprecie mais no curto e médio prazo, o que reforça uma perspectiva de inflação mais sob controle, favorecendo a expectativa de queda de juros, já reforçada pela mudança na política de preços da Petrobras. "Tudo isso sugere que o Copom irá de fato iniciar o corte de juros em breve, muito provavelmente no início do segundo semestre."

No começo da tarde, as taxas chegaram a zerar a queda e, no caso dos longos, a ameaçar uma correção em alta, em sintonia com as máximas dos Treasuries, mas depois voltaram a cair. Ariane Benedito destacou que a curva tem mostrado alguns desvios na rota baixista em meio não só a percepção sobre o quadro internacional, "mais pró-alta de juros", como também à avaliação de que a leitura qualitativa do processo de desinflação ainda não autoriza tanto otimismo sobre a queda da Selic. "Por mais que estejamos vendo desaceleração, o qualitativo não tem sido satisfatório. Por isso também a direção para a curva não é tão definida", disse.

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