Tem um número que explica o primeiro turno de domingo melhor do que qualquer discurso. O PL saltou de 98 para 121 deputados federais e agora é a maior bancada da Câmara. Avançou sobre o centrão, viu partidos de centro encolherem e deixou a esquerda com cerca de um quarto da Casa. Mas eu não quero falar do número. Quero falar do que ele revela sobre a cabeça do eleitor.
O voto para deputado mudou de natureza. Deixou de ser voto de representação e virou voto de alistamento. O eleitor já não escolhe um nome, uma história, um conjunto de propostas. Ele escolhe um lado da guerra e entrega o voto ao número que a trincheira indicar. E faz sentido, do ponto de vista dele. Numa cédula com centenas de candidatos, a polarização resolve o problema mais difícil da urna, escolher alguém que o faça sentir-se representado.
A matemática eleitoral amplifica tudo. No sistema proporcional, o voto dado ao puxador nacionalizado eleva o quociente do partido e arrasta para o Congresso nomes que o eleitor nunca escolheria conscientemente. A trincheira não elege só os seus generais. Elege soldados que ninguém conhece. É a representação terceirizada. O eleitor assina uma procuração para o seu lado, e o lado preenche as cadeiras.
Quem pagou essa conta foi o campo da gestão. Candidatos com histórico de entrega reconhecida, aprovação e carinho real nas ruas veem tudo isso não se converter em voto. Não por rejeição ao trabalho. A decisão foi tomada em outro tabuleiro, o nacional, o identitário. Depois dessa eleição, posso afirmar que gratidão não é voto. O eleitor agradece e reconhece quem fez, mas defende quem está na trincheira. E trincheira se constrói junto, todo dia, de dentro. Proposta se assiste de fora.
O país vai sentir o custo. Uma Câmara eleita pela lógica do confronto legisla pela mesma lógica. Menos acordo, menos técnica, menos ponte. Saneamento, educação e segurança integrada são políticas que exigem paciência e consenso, e não nascem em trincheira.
O desafio dos próximos ciclos está dado. Não é abandonar as ideias, é dar a elas o que a trincheira tem de sobra: pertencimento. Provar que cuidar de gente também é uma bandeira pela qual se veste a camisa. Enquanto essa síntese não vier, o eleitor brasileiro vai seguir muito bem representado na sua raiva e mal representado nas suas necessidades.
Rodrigo Buffo é jornalista, especialista em jornalismo de dados e estrategista em comunicação política


