Tem uma regra no debate da Band, marcado para este domingo, que resume a eleição de 2026 melhor do que qualquer pesquisa. Se um dos candidatos não aparecer, o púlpito fica lá, vazio, com o nome dele. É a imagem perfeita de uma campanha presidencial em que os dois finalistas aprenderam que estar ausente custa menos do que estar presente.
Os fatos são simples. No primeiro turno, nem Lula nem Flávio Bolsonaro foram a um único debate. No segundo, a Record cancelou o seu por “incompatibilidade de agendas” e o pool de onze veículos que faria o encontro desta quinta também não aconteceu. Uma disputa que o Datafolha mede em 51 a 49 chegou à reta final sem que os dois candidatos tenham ficado frente a frente uma única vez.
Isso não é descuido. É estratégia. E, do ponto de vista técnico, é estratégia racional.
O debate é o único formato em que o candidato não controla nada. Nem a pergunta, nem o tempo, nem o enquadramento, nem o corte que vai circular no dia seguinte. Para uma campanha montada na lógica da trincheira, ele é puro risco. O eleitor de cada lado já está alistado e ninguém troca de voto porque o seu candidato respondeu bem sobre política fiscal. Mas um tropeço de dez segundos vira o vídeo mais compartilhado da semana no grupo do lado de lá. Na conta fria, o debate oferece pouco ganho e muita exposição.
Então os candidatos foram para onde controlam o ambiente. Live semanal, ato com militância, entrevista em formato individual, vídeo de bastidor gravado e editado pela própria equipe. Em todos esses lugares, o candidato fala com quem já concorda com ele. É comunicação de manutenção, não de persuasão. Serve para manter a tropa animada, não para conquistar território.
E aqui mora o paradoxo. Uma eleição decidida por dois pontos é justamente a eleição em que manda o eleitor que não está em trincheira nenhuma. O sujeito que votou em outro candidato no primeiro turno, que anulou, que está cansado dos dois. Esse eleitor não assiste live de candidato e não está no grupo de WhatsApp da militância. Ele é alcançado pelos formatos de massa que as campanhas estão evitando. As duas campanhas otimizaram a comunicação para o eleitor que já ganharam e abriram mão de falar com o eleitor que ainda não decidiu.
O prejuízo não é só delas. O debate é um dos poucos rituais em que a política ainda é obrigada a parecer conversa. Dois adversários no mesmo palco, sob as mesmas regras, tendo que responder um ao outro. Quando ele some, some também a última vitrine pública de que divergir é diferente de guerrear. Cada lado fica no seu palco, falando do outro sem precisar ouvi-lo.
Domingo pode mudar isso, se os dois aparecerem. Mas, se o púlpito ficar vazio, ele será a fotografia mais honesta de 2026: dois candidatos disputando o voto de um país inteiro e fugindo da única conversa que esse país inteiro poderia assistir.
Rodrigo Buffo é jornalista, especialista em jornalismo de dados e estrategista em comunicação política


