Economia

Rublo afunda após alta surpreendente de juros na Rússia

A Rússia sofre nova derrota na queda de braço com o mercado internacional para tentar valorizar o rublo nesta terça-feira. A estratégia emergencial de aumentar a taxa básica de juros para 17% ao ano surte pouco efeito no câmbio em meio a uma nova queda nos preços do petróleo, e leva investidores a questionar as opções e a capacidade do banco central para manter a estabilidade financeira no país.

“Em uma situação em que o banco central permite que sua moeda deprecie 10% ao dia, a mensagem é a de que ele perdeu o controle, e sua credibilidade está em jogo”, afirma Tim Ash, analista do banco Standard em nota a clientes. O economista considera que o BC russo não pode permitir uma desvalorização contínua “e deverá retornar com uma grande, grande intervenção no câmbio, ou novas elevações nos juros”.

“O aumento nos juros é OK, mas aconteceu tarde demais. Se eles tivessem elevado nessa proporção na última quinta-feira e aumentassem as intervenções, isso teria acalmado o mercado”, avalia Alexei Kulakov, diretor de operações com derivativos do Promsvyazbank.

Uma intervenção maior no mercado de câmbio também é a opção que a autoridade monetária russa deve adotar, segundo avaliação de Viktor Szabo, gerente de investimentos da Aberdeen Asset management. No entanto, ele considera que “o preço do petróleo precisa se estabilizar para que a pressão sobre o rublo diminua”. No entanto, caso a avaliação de Moscou seja a de que as tensões políticas irão permanecer ao longo de 2015, o BC pode decidir intervir menos para preservar seus US$ 450 bilhões em reservas.

A ação do BC deve ajudar a mudar o equilíbrio de forças que vem desvalorizando o rublo nas últimas semanas, mas não será suficiente por si só, na avaliação do diretor de negociações do banco Otkritie, Pyotr Neimyshev. “Se for só uma alta de juros, não trará nada que não seja um impacto negativo sobre os negócios”, comenta.

No entanto, nem todos os analistas acreditam que tais opções sejam suficientes para assegurar uma vitória do rublo. O banco Sberbank, em nota a clientes, pondera que a alta dos juros deve ter um efeito positivo no mercado de câmbio, mas que o banco central “deve reduzir a um mínimo, senão cortar, novos volumes de liquidez do rublo gerados em operações de refinanciamento”.

Alguns economistas vão ainda mais longe e afirmam que nem mesmo um controle de capital poderá conter uma desvalorização da moeda nacional. Para Jason Pidcock, gestor de fundos de mercados emergentes da Newton, subsidiária do Bank of New York Mellon, “outras opções são relativamente limitadas e é por isso que considero que uma transação territorial pode ser uma possibilidade”. Segundo ele, Moscou pode chegar ao ponto crítico de considerar uma venda do tipo à Pequim, cujas ambições territoriais têm se tornado mais evidentes.

Efeito Nabiullina

Em meio à turbulência cambial, a presidente do banco central russo, Elvira Nabiullina, fez discurso nesta terça-feira em rede de TV estatal para tentar tranquilizar o mercado após a elevação dos juros. Suas palavras, entretanto, não foram bem recebidas pelos investidores do país, que buscavam sinais mais claros do comprometimento do BC com a estabilidade financeira.

Nabiullina optou por relacionar a decisão de política monetária à necessidade de combater a inflação e ressaltou que o banco precisa tornar mais arriscadas as estratégias especulativas no mercado. A presidente da autoridade monetária também confirmou que não tem planos de impor nenhum tipo de “restrições administrativas” para combater a depreciação da moeda, descartando medos de que a Rússia adotaria medidas de controle de capital.

O BC do país já trabalha com a possibilidade do Produto Interno Bruto (PIB) encolher entre 4,5% e 4,7% em 2015, caso o preço do petróleo, seu principal produto de exportação, ficar em US$ 60 por barril. Com a commodity negociada abaixo deste patamar nesta terça-feira e uma alta surpreendente dos juros, o cenário deve se agravar.

A autoridade monetária aumentou a taxa básica em 6,5 pontos porcentuais de uma única vez, mas a ação não impede nova desvalorização do rublo nesta terça-feira. Às 9h35 (de Brasília), o dólar avançava mais de 22%, a uma máxima histórica de 73,724 rublos.