Estadão

Sem tropas dos EUA, líder afegão armará civis

O presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, disse nesta terça-feira, 10, que as negociações de paz com o Taleban estão mortas, que pretende armar civis e cooperar com senhores da guerra para impedir que o grupo jihadista derrube seu governo em Cabul. Em menos de uma semana, o Taleban conquistou 9 das 34 capitais regionais e se aproxima da maior cidade do norte do país, Mazar-i-Sharif.

Descrevendo o clima no palácio presidencial como "pior do que nunca", testemunhas relatam que Ghani se sente cada vez mais isolado à medida que os EUA deixam o país e o Taleban ganha apoio diplomático de países importantes, como Paquistão, Rússia e China. Sua única saída, disseram, é reunir grupos afegãos que se opõem aos extremistas para se unirem em uma guerra civil – semelhante à situação na década de 90.

Os militares dos EUA, que já retiraram a maioria de suas tropas antes do prazo final, no dia 31, deixarão o Afeganistão após 20 anos de guerra. No domingo, 8, eles disseram que realizaram ataques aéreos em um esforço para proteger posições de seus aliados do governo afegão.

Enquanto o governo permanece aberto às negociações, o Taleban recusa o diálogo, disse o porta-voz presidencial, Mohamed Amiri. Por isso, Ghani decidiu mobilizar e armar a população local para lutar contra o Taleban, depois de uma reunião com os principais senhores da guerra e líderes políticos, acrescentou Amiri.

A última rodada de negociações entre o Taleban e o governo afegão ocorreu em Doha, no Catar, em 17 de julho, sem resultados práticos. Nenhuma reunião aconteceu depois e Ghani disse a seu gabinete, em 31 de julho, que o Taleban não quer a paz nem a construção do país. "Queremos paz, mas eles querem nossa rendição."

<b>Avanço</b>

Ontem, a milícia radical conquistou mais três capitais estratégicas, ampliando sua campanha rumo a capital Cabul. A velocidade com que as forças afegãs estão perdendo o controle de algumas partes do país vem rendendo críticas ao governo de Joe Biden por uma retirada precipitada que corre o risco de desestabilizar a região. A guerra de duas décadas matou mais de 2,4 mil militares americanos e custou aos contribuintes cerca de US$ 1 trilhão.

Além de ganhos territoriais, o Taleban fez avanços diplomáticos que vão além do que o grupo alcançou antes da invasão dos EUA, em 2001, após os ataques de 11 de Setembro. O chanceler da China, Wang Yi, recebeu uma delegação do Taleban no mês passado. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, também vem se aproximando dos extremistas.

Embora o Taleban tenha dito que deseja negociações de paz com o governo de Ghani, no terreno o grupo está assumindo um tom assertivo e deixando um caminho de destruição que lembra a brutalidade que implantou antes da guerra. "O Taleban não se renderá e invadirá cidades como Cabul para lutar e derrubar o governo, se as negociações falharem", disse Zabihullah Mujahed, porta-voz do grupo.

Não está claro por quanto tempo o governo afegão terá o apoio aéreo americano após a partida das tropas. John Kirby, porta-voz do Pentágono, disse que os EUA continuariam a apoiar as forças afegãs até o fim do mês, antes de mudar para apoio financeiro e de manutenção logística de fora do país. "Esse é o país deles", disse Kirby.

"Depois de 31 de agosto, temo que a guerra possa continuar tão intensamente ou até mais do que nos últimos três meses", afirmou Andrew Watkins, analista do centro de estudos International Crisis Group. "Cabul pode sofrer ataques de diferentes tipos. Isso pode ser uma continuação dos assassinatos seletivos, um retorno a ataques ou bombardeios mais complexos ou mesmo manobras militares nos arredores da capital."

"É um retrocesso com relação à época em que o antigo governo apoiado pela Rússia caiu nas mãos dos insurgentes do Taleban", disse o analista Atiqullah Amarkhel, de Cabul. "A guerra, desta vez, será mais mortal e destrutiva." (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)
As informações são do jornal <b>O Estado de S. Paulo.</b>