Mas a sessão extraordinária desta segunda-feira (19) também deixou sinais políticos que merecem atenção. A abstenção do presidente da Câmara, Fausto Miguel Martello (Republicanos), a ausência do vereador Kleber Ribeiro (PL) e o voto contrário de Alemão do Transporte (DC), integrante da base governista, levantam questionamentos sobre a articulação política do Executivo.
O projeto agora segue para sanção do prefeito. Se sancionadas, as mudanças poderão produzir efeitos a partir de 2027, encerrando o congelamento do IPTU adotado em 2017 pelo ex-prefeito Guti (PSD), que garantiu ao longo deste período aos guarulhenses uma economia superior a mais de dois anos de imposto, no acumulado considerando apenas a inflação.
O placar expressivo esconde, porém, uma situação menos confortável para o governo: a votação de uma proposta de grande impacto para os contribuintes expôs diferenças de comportamento entre vereadores que, em outras circunstâncias, costumam caminhar juntos com o Executivo.
Martello evita votar em meio a episódio envolvendo sua empresa

A abstenção de Martello foi um dos fatos mais significativos da sessão. À frente da Câmara, o vereador adotou uma postura diferente daquela que historicamente marcou sua relação com a base governista, da qual tem sido aliado em votações de interesse do Executivo.
O episódio ganha um componente adicional diante dos acontecimentos dos últimos dias. Na sexta-feira (16), Martello determinou a devolução do projeto à Prefeitura para novos estudos e cancelou uma sessão extraordinária convocada para discutir a proposta na noite daquele dia. A decisão interrompeu a tentativa de acelerar a votação naquele momento.
Na mesma sexta-feira, a empresa Paupedra, da qual Martello é sócio, foi alvo de fiscalização da Prefeitura, conforme noticiado pelo G1. A coincidência temporal chamou a atenção no meio político e alimentou questionamentos sobre o ambiente de tensão entre o Executivo e o presidente do Legislativo.
Não há, entretanto, comprovação de que a fiscalização tenha sido motivada por divergências em torno do IPTU ou de que tenha determinado a abstenção de Martello. Os episódios constituem um contexto político relevante, mas qualquer relação de causa e efeito depende de evidências.
Ao se abster, Martello evitou declarar apoio ou oposição direta ao projeto na votação. O gesto também o diferenciou dos 24 vereadores que respaldaram a proposta de Lucas Sanches.
Kleber Ribeiro faltou após dizer ao GWEB que consideraria a opinião popular

Outra situação que chamou a atenção foi a ausência de Kleber Ribeiro, vereador do PL, mesmo partido do prefeito. Em resposta anterior ao GuarulhosWeb, o parlamentar havia afirmado que estava estudando a proposta e que levaria em consideração a opinião da população antes de definir seu posicionamento.
“Estou estudando o projeto. Mas, sem dúvida nenhuma, vou fazer uma votação que o povo aprove e não fique descontente, porque quem me elegeu foi o povo”, declarou ao portal.
Na sessão decisiva, porém, Kleber não compareceu. Com isso, deixou de registrar um voto contrário ou favorável ao projeto que provocou forte controvérsia política na cidade.
A ausência abre espaço para uma pergunta inevitável nos bastidores: o vereador preferiu não se posicionar publicamente para evitar o desgaste de votar contra o aumento do IPTU ou de contrariar a orientação do próprio partido e do governo?
Não é possível afirmar que essa tenha sido a motivação da falta. O fato objetivo é que Kleber havia prometido considerar a reação popular, mas não participou da votação que definiu o futuro da proposta.
Alemão do Transporte contraria o governo

Se Martello evitou escolher um lado e Kleber não compareceu, Alemão do Transporte fez o movimento mais explícito: votou contra o projeto do prefeito, contrariando a posição majoritária da base governista.
O voto do vereador do DC merece atenção justamente por seu histórico de alinhamento com o governo municipal. Em uma votação considerada prioritária pelo Executivo, Alemão decidiu se posicionar ao lado dos parlamentares contrários à proposta.
Nos bastidores, circulam informações de que o vereador teria ficado insatisfeito com movimentos políticos do governo nos últimos dias. Esse possível descontentamento ajuda a explicar por que seu voto passou a ser observado como um sinal de alerta para a articulação de Lucas Sanches na Câmara.
A questão agora é saber se o episódio ficará restrito à votação do IPTU ou se poderá provocar mudanças na relação entre o parlamentar e o Executivo. Alemão poderá continuar na base, mesmo após divergir do prefeito em um tema de grande relevância? Poderá enfrentar algum tipo de retaliação política? Ou o voto indica um afastamento mais duradouro?
Por enquanto, não há confirmação de rompimento nem de medidas contra o vereador. O voto contrário, entretanto, torna pública uma divergência que o governo terá de administrar.
Vitória de Lucas, mas com sinais para acompanhar

A aprovação por 24 votos mostra que Lucas Sanches conseguiu reunir apoio suficiente para avançar com uma de suas principais propostas tributárias. O resultado, nesse aspecto, representa uma vitória do Executivo.
A tramitação, contudo, foi marcada por disputas sobre o ritmo da votação, questionamentos da oposição e a tentativa de impedir que o projeto avançasse sem novas discussões. A devolução da proposta à Prefeitura na sexta-feira e a votação definitiva na segunda-feira deram ao episódio um componente de tensão entre os dois Poderes.
Agora, com o texto encaminhado para sanção, a atenção se desloca para os efeitos da medida sobre os contribuintes e para as consequências políticas da votação.
O aumento do IPTU foi aprovado. O teste político, porém, pode continuar nos próximos dias. O placar resolveu a votação, mas não necessariamente encerrou as divergências que vieram à tona durante a tramitação do projeto.


