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Chefe da ONU alerta que avanço da IA supera governos e pede regras globais

Na abertura do Diálogo Global sobre Governança da IA, António Guterres destacou os riscos da autonomia das máquinas.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, fez um apelo urgente aos governos de todo o mundo nesta segunda-feira (6) para que estabeleçam uma governança mundial organizada sobre a inteligência artificial (IA). A declaração ocorreu na abertura do primeiro Diálogo Global sobre Governança da IA, em Genebra, na Suíça, fórum intergovernamental criado para coordenar o desenvolvimento e o uso ético da tecnologia.

Guterres alertou que os sistemas atuais evoluem a uma velocidade vertiginosa e já são capazes de escrever códigos de programação, atuar de forma independente na internet e tomar decisões com cada vez menos supervisão humana.

“Nossas instituições foram concebidas para enquadrar máquinas que executam ordens. Elas não estão preparadas para governar máquinas que tomam decisões. E certos limites, uma vez ultrapassados, não podem ser restabelecidos”, explicou o secretário-geral.

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Avanço rápido da tecnologia preocupa cientistas

O evento coincide com a publicação do relatório preliminar do Painel Científico Internacional Independente da ONU sobre IA, composto por 40 especialistas globais. O documento traz conclusões consideradas “sóbrias” e aponta que a capacidade de processamento e execução das ferramentas duplica a cada poucos meses, criando um fosso perigoso entre o avanço tecnológico e a compreensão científica necessária para regulá-lo.

O relatório também mapeou uma forte assimetria geopolítica: embora mais de um bilhão de pessoas utilizem ferramentas de IA conversacional semanalmente, o poder de desenvolvimento está concentrado. Os Estados Unidos detêm cerca de 75% da capacidade de computação entre os 500 maiores supercomputadores de IA do mundo, enquanto a China detém cerca de 15%. Segundo Guterres, quanto mais a tecnologia avança sem regras compartilhadas, menos influência os governos e a sociedade civil terão sobre os resultados futuros.

Três frentes de risco e proteção às crianças

O chefe da ONU sintetizou as ameaças centrais da falta de controle em três pontos principais: a rapidez do desenvolvimento, a concentração do mercado em poucos países e empresas, e o risco que conteúdos gerados por IA representam para a credibilidade dos fatos.

Para mitigar esses problemas, Guterres propôs que as nações assumam compromissos firmes em quatro prioridades: segurança, direitos humanos, transparência e o fortalecimento das capacidades dos países em desenvolvimento através de um Fundo Mundial para a IA.

Dentro da segurança, o secretário-geral deu ênfase máxima à proteção infantil:

  • Testes prévios: Exigência de testes rigorosos de segurança antes que qualquer IA seja disponibilizada para menores.

  • Proibição estrita: Banimento total de imagens de teor sexual de menores geradas por algoritmos.

  • Apoio humano: Garantia de que sistemas direcionem crianças em situação de angústia para suporte humano real.

“As crianças são enganadas por máquinas que se fazem passar por amigas. Nenhuma criança deveria ser usada como cobaia para uma IA não regulada”, enfatizou.

Impacto ambiental e uso militar

O pronunciamento ainda cobrou transparência das grandes empresas de tecnologia, exigindo que divulguem abertamente a pegada ambiental de seus sistemas e que abasteçam 100% de seus centros de dados (data centers) com energia renovável até 2030.

Por fim, Guterres condenou de forma veemente o uso da inteligência artificial no âmbito militar, especificamente o desenvolvimento de armas letais autônomas. Para o secretário-geral, o uso de máquinas que selecionam e atacam alvos sem julgamento humano é “moralmente repugnante” e deve ser expressamente proibido pelo direito internacional.

As discussões do Diálogo Global continuam ao longo desta semana em Genebra e servirão de base para propostas concretas de regulação coordenada internacionalmente.