Estadão

Dólar sobe 0,29% com exterior e ruído político, em dia de intervenção do BC

Em mais um dia de extrema volatilidade, marcado por aversão ao risco no exterior e preocupações com agravamento da crise interna – após atritos entre a CPI da Covid e as Forças Armadas, além de perda de capital político do presidente Jair Bolsonaro -, o dólar subiu mais um degrau e fechou em alta pelo oitavo pregão consecutivo.

Pela manhã, uma combinação de zeragem de posições "vendidas", busca por proteção (hedge) e movimentos especulativos levou o dólar a romper a barreira de R$ 5,30 e atingir a máxima de R$ 5,3133. A sangria do real só foi estancada pela intervenção do Banco Central com uma oferta de 10 mil contratos de swap cambial (US$ 500 milhões), completamente absorvida pelos investidores.

Com a descompressão no mercado de dólar futuro, a moeda americana perdeu força, virou para o terreno negativo e registrou sucessivas mínimas no início da tarde, descendo até R$ 5,2198. O movimento coincidiu com a perda de força do dólar em relação a divisas pares do real, como o peso mexicano e o rand sul-africano.

Mas o sentimento de cautela, à véspera do feriado de 9 de julho em São Paulo, que vai deixar a B3 fechada, e uma piora das divisas emergentes levaram o dólar a subir novamente, embora de forma mais modesta, para encerrar o pregão em alta de 0,29%, a R$ 5,2554 – maior valor de fechamento desde 26 de maio (R$ 5,3133). A moeda americana já acumula alta de 4% na semana e de 5,67% no mês.

"O BC interveio porque houve uma busca muito forte por proteção, com desconforto de que quem estava vendido , e um movimento grande de especuladores, que se aproveitaram do dia ruim lá fora e dessa questão da CPI da Covid", afirma Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora. "Esses US$ 500 milhões de swap cambial foram suficientes para eliminar distorções e mostrar que o BC está atento para qualquer tentativa de puxada mais forte do dólar".

Analistas destacam que o agravamento das tensões políticas veio justamente em um momento de correção mais forte dos mercados globais, provocada por preocupações com o ritmo de recuperação da econômica mundial em meio à disseminação da variante Delta do novo coronavírus. Ao tom menos ameno do Federal Reserve ontem se somaram a postura mais complacente do Banco Central Europeu com a inflação (a meta passou de ligeiramente inferior a 2% ao ano) e o anúncio de estímulos de monetários na China.

"O mercado começa a ver que talvez haja um atraso na recuperação da economia global, com essa questão da variante delta, e isso levou a um movimento de realização de lucros lá fora, já que as bolsas estavam bem esticadas", diz Galhardo, ressaltando que o real costuma sofrer mais que outras moedas emergentes, ainda mais em meio ao agravamento das tensões política. "Se não fosse a questão política, o dólar estaria mais baixo. A tendência mais estrutural ainda é de queda, com juros mais altos e muitas captações".

Ontem, o presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz (PSD-AM), determinou a prisão do ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Dias (solto após pagamento de fiança) e afirmou que "fazia muitos anos que o Brasil não via membros das Forças Armadas envolvidos em falcatruas". O Ministério da Defesa reagiu com uma nota de repúdio, assinada pelo ministro Walter Braga e pelos os comandantes das três forças. Aziz respondeu dizendo que não aceita "intimidação".

O presidente da CPI da Covid enviou hoje carta a Bolsonaro cobrando posição sobre acusações feitas pelo deputado Luiz Miranda (DEM-DF) contra o governo a respeito da proposta de compra da vacina indiana Covaxin. Bolsonaro, em conversa com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada, acusou Aziz de ter desviado R$ 260 milhões no Amazonas.

Por ora, não se trabalha com a perspectiva de que a crise deságue no impeachment de Jair Bolsonaro. Mas a elevação da temperatura na CPI pode desgastar ainda mais o presidente, que está com a popularidade em baixa e aparece atrás de Lula nas pesquisas para a eleição de 2022. Pesquisa XP/Iespe divulgada hoje mostrou o petista com 38% das intenções de voto, e o Bolsonaro, com 26%.

Há temores também que Bolsonaro radicalize e adote uma postura populista para tentar se recuperar no pleito, o que poderia se traduzir em atraso nas reformas e expansão de gastos. Em nova defesa do voto impresso, o presidente hoje disse "ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições".

O responsável pela área de câmbio da Terra Investimentos, Vanei Nagem, afirma que, a despeito do arrefecimento do ímpeto do dólar à tarde, a perspectiva ainda é de alta, dada a aversão ao risco lá fora e os problemas políticos internos. "Pode ter refrescos pontuais com a entrada do BC no mercado, mas a tendência ainda é de dólar para cima", diz Nagem. "O dólar pode vir a buscar novamente R$ 5,30. E, se houver mais dois ou três dias de turbulência na semana que vem, pode ir até R$ 5,40 ", afirma.