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O avanço silencioso da demência e a esperança que chega ao Brasil

Estudo internacional revela projeções alarmantes para 2050, enquanto novo exame de sangue promete revolucionar o diagnóstico do Alzheimer no país.
Alessandra Zanchetta*

A cada ano, milhões de pessoas em todo o mundo recebem um diagnóstico que muda para sempre suas vidas e as de suas famílias: demência. Em 2023, foram 11,4 milhões de novos casos registrados globalmente. Se nada mudar, até 2050 esse número pode saltar para 24,7 milhões por ano — mais que o dobro do atual. É como se uma cidade inteira desaparecesse, pouco a pouco, dentro da névoa da memória.

O estudo internacional publicado na JAMA Neurology revela nuances desse cenário inquietante. As mulheres, por exemplo, apresentam taxas mais altas de incidência do que os homens. Já os países de baixa e média renda carregam um peso maior da doença em comparação às nações ricas. São números que não apenas informam, mas também escancaram desigualdades sociais, econômicas e de acesso à saúde.

Foram analisados dados de mais de 38 mil pessoas em 18 países, acompanhados ao longo de quase 300 mil pessoas-ano. Entre elas, 3.001 desenvolveram demência. A estatística é fria, mas por trás de cada número há uma história de esquecimento, de laços desfeitos, de identidades que se apagam.

E é nesse cenário que surge uma notícia capaz de reacender a esperança: o Brasil acaba de receber o primeiro exame de sangue aprovado pela Anvisa para auxiliar no diagnóstico da doença de Alzheimer. O teste, disponível inicialmente apenas na rede privada, mede a proteína p-tau217, um biomarcador associado ao acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro.

Mais do que um avanço tecnológico, trata-se de uma revolução silenciosa. O exame é menos invasivo do que a punção lombar, mais acessível do que exames de imagem complexos e tem precisão superior a 90%. Embora ainda restrito à rede privada, com custo em torno de R$ 3 mil, abre caminho para diagnósticos mais rápidos e para que pacientes iniciem tratamentos em fases mais precoces da doença.

Durante muito tempo, o diagnóstico da demência se apoiava apenas no que podia ser visto no consultório: lapsos de memória, dificuldades de linguagem, mudanças de humor que denunciavam o início de um processo silencioso e devastador. Era como observar a ponta de um iceberg sem imaginar a imensidão submersa.

Hoje, a neurociência abriu uma janela para esse invisível. Com exames de imagem sofisticados, como a Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET), é possível mapear em tempo real os depósitos de amiloide e tau que se acumulam no cérebro, revelando a doença antes mesmo que os sintomas apareçam. Nos exames de sangue e líquor, a dosagem de fragmentos proteicos específicos — como a proteína p-tau217 — permite identificar alterações moleculares até 15 ou 20 anos antes do primeiro esquecimento. Essa antecipação muda tudo: não se trata mais apenas de reconhecer a demência quando ela já se instalou, mas de enxergar seus sinais mais sutis, quase invisíveis, e agir antes que a memória se perca.

No campo terapêutico, também há uma revolução em curso. Se antes os tratamentos se limitavam a amenizar sintomas com inibidores da colinesterase, hoje surgem novas frentes ousadas. Anticorpos monoclonais, como lecanemabe e donanemabe, são projetados para limpar fisicamente os agregados tóxicos que corroem as conexões neuronais. É como varrer o cérebro de resíduos que, pouco a pouco, sufocam sua vitalidade.

A neurociência não apenas ilumina o caminho da detecção precoce, mas também abre possibilidades concretas de intervenção. O que antes era apenas espera e resignação, agora se transforma em esperança e ação.

O futuro, portanto, se desenha em duas linhas paralelas: de um lado, a curva ascendente da demência no mundo; de outro, a chegada de ferramentas que podem mudar o curso dessa história. Entre estatísticas e avanços científicos, permanece o desafio maior: transformar números em políticas públicas, ciência em acesso, e esperança em realidade para milhões de famílias brasileiras.

Por Alessandra Zanchetta, jornalista e especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness