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Cinelândia

Salve “A plateia” geral

Devo confidenciar aos meus sete leitores que em alguma coisa finalmente concordo em gênero, número e grau com nosso presidente

Quando o assunto é a imagem do Brasil divulgada ao mundo pelo nosso cinema, convenhamos já está na hora de mudar o foco que já está mais do que ultrapassado. Chega de miséria e de violência! O Brasil não é só favela e criminalidade. Porém mais uma piada, ops, um filme retratando nossa dura realidade (ao menos na visão dos diretores) chega aos cinemas e o que mais nos assusta não é o tema, mas sim que o filme pode ser um possível indicado para a nossa tão sonhada busca pela estatueta dourada de Hollywood.


 


Se a estátua for a Framboesa de Ouro com certeza já será nossa e sem ter de fazer lobby e nem pedir ajuda extra a partidos do crime (na cadeia) ou partidos criminosos (em Brasília) como queiram, afinal com um elenco ruim, um roteiro ruim e uma direção desastrosa e descomprometida com o assunto, a taça do trash é nossa, porque com brasileiro não há quem possa. Nem a gente, aliás, quando o assunto é perder tempo e dinheiro no cinema para ver mais um filme, ironicamente pago com a nossa grana mediante leis de incentivo e patrocínios sempre questionáveis.


 


Que Fernando Meirelles baseando-se no tema criminalidade e violência fez um excelente trabalho com Cidade de Deus – uma obra prima do cinema nacional – e que José Padilha se utilizou muito bem também do tema para imortalizar o personagem de Capitão Nascimento, como o herói da nação – o nosso primeiro Bruce Willis e Stallone com patente brazuca – no cultuado Tropa de Elite é lá verdade e admirável, mas transformar tragédia em piada como é o caso do filme Salve Geral aí acho que já passa um pouco dos limites do bom senso.


 


Claro que vão ter alguns amigos dos meus sete leitores que vão dizer que gostaram do filme, o que não me espanta, já que nosso símbolo sexual é a mulher melancia e nosso novo produto Pop é o conjunto Djavú (sim, com acento no ú) que é uma espécie de Calypso somado a um DJ de funk, o que seria mais ou menos você ter turbeculose somada a pancreatite crônica. Que me perdoe a direção do filme e os envolvidos do projeto, mas a verdade tem de ser dita: utilizaram-se de um tema polêmico e complexo para se fazer uma grande piada repleta de clichês de novela, diálogos ironicamente bizarros e personagens caricatos que não assustariam nem uma criança de quatro anos. Transformaram um movimento social – mesmo que de dentro de presídio – numa panfletagem hedionda que supriu a maior farsa e desrespeito com a população e com o próprio partido do que quando Gugu em seu Domingo Legal – o nome já é uma contradição – forjaram ataques e ameaças à população em nome de tal partido.


 


O que aliás não deu em nada até hoje. É uma pena que assuntos tão complexos e provedores de debates interessantes para a nação, como o nosso sistema carcerário falido, o judiciário moroso e por vezes corrupto, a desigualdade social onde poucos têm muito e muitos têm quase nada, tudo isto transformado em programa de sessão da tarde. Que a fatídica história do Dia das Mães que parou SP, seja resgatada por pessoas envolvidas culturalmente e politicamente na história, para que a mesma seja contada quem sabe um dia, de novo, sem maniqueísmo e clichês baratos, onde ao invés de se apresentar certos e errados, nos faça refletir para uma discussão muito mais complexa e que deve ser levada ao debate social, por se tratar de um tema que nem de longe é piada.


 


A fundação de partidos sociais, sejam eles criados por presidiários, por policiais, ou por cidadãos comuns deve sim ser um tema a ser levado a sério como o tráfico foi em Cidade de Deus e a polícia em Tropa de Elite. O cinema não está para apontar culpados e nem inocentes. Está aí para entreter ou para conscientizar. E o filme Salve Geral, infelizmente, não atingiu nenhuma destas funções. Salvem Geral o nosso cinema Nacional!


 


Maurício Nunes é autor do livro Sob a Luz do Cinestar e também mantém o blog  www.programacinelandia.blogspot.com

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