Alessandra Zanchetta*
O Brasil atravessa um período de turbulência política e institucional. Escândalos de corrupção, disputas no Supremo Tribunal Federal (STF) e a avalanche de manchetes negativas afetam diretamente a saúde mental da população. A sensação de insegurança coletiva tem raízes tanto no cenário político quanto no funcionamento do nosso cérebro.
Um estudo de Baumeister et al. (2001, Review of General Psychology) demonstra que “o ruim é mais forte que o bom”. Essa evidência conecta diretamente a neurociência ao contexto político brasileiro, explicando por que más notícias têm tanto poder sobre nossa percepção e bem-estar. A neurociência mostra que o ser humano possui um viés da negatividade: tendemos a dar mais atenção a ameaças do que a informações neutras ou positivas. Essa característica foi essencial para a sobrevivência em ambientes hostis, mas hoje nos deixa vulneráveis ao excesso de más notícias. A amígdala cerebral, responsável por processar emoções como medo e ansiedade, entra em hiperatividade diante de conteúdos alarmantes. Isso provoca a liberação de cortisol, o hormônio do estresse, e mantém o corpo em estado de vigilância constante. Quando tragédias e escândalos se repetem sem pausa, o cérebro passa a interpretar o mundo como permanentemente perigoso, mesmo que a realidade seja mais complexa.
No Brasil, a crise institucional do STF tem funcionado como gatilho para esse ciclo. A pesquisa Meio/Ideia, registrada no TSE sob o protocolo BR-07935/2026 e realizada entre 4 e 7 de setembro de 2026, revelou que apenas 36,5% dos brasileiros confiam na Corte, enquanto 49,7% afirmam ter pouca ou nenhuma confiança. Além disso, mais da metade dos entrevistados acredita que os ministros decidem mais por interesse próprio do que pela lei. Esse dado reforça a percepção de fragilidade institucional e amplia a sensação de insegurança entre os cidadãos.
Cada nova manchete sobre corrupção ou disputas judiciais funciona como um gatilho emocional. O cérebro reage a esses eventos como se fossem ameaças imediatas, gerando ansiedade, sensação de impotência e até fadiga mental. O fenômeno é intensificado pelo chamado doomscrolling, hábito compulsivo de consumir notícias negativas mesmo quando já provocam angústia. Crianças, mais vulneráveis, podem interpretar crises políticas como riscos diretos ao seu ambiente, aumentando o risco de ansiedade precoce.
As consequências desse estado de alerta prolongado são claras: ansiedade crônica, fadiga mental, desconfiança institucional e a impressão de que não há saída. Para reduzir o impacto, especialistas recomendam medidas simples, como limitar o tempo de consumo de notícias, diversificar fontes incluindo conteúdos positivos, praticar atividades de regulação emocional como meditação e exercícios físicos, e contextualizar os acontecimentos, lembrando que nem toda ameaça é imediata ou pessoal.
O cérebro brasileiro não está anestesiado diante da avalanche de más notícias — está hiperativado e sobrecarregado. A crise política e a instabilidade do STF intensificam esse efeito, criando um ciclo de estresse coletivo e desconfiança. Romper esse padrão exige não apenas consumo consciente de informação, mas também o fortalecimento da transparência institucional e o cuidado com a saúde mental da sociedade.

Por Alessandra Zanchetta, jornalista e especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness


